terça-feira, 30 de setembro de 2025

Maçonaria Brasileira: Uma Reflexão Necessária

A Maçonaria brasileira, como toda tradição viva, caminha sobre um fio delicado: preservar a herança simbólica e filosófica que a sustenta enquanto adapta, com sabedoria, ao tempo presente. Nesse esforço por manter sua relevância, surgem questões sensíveis que merecem atenção, e, entre elas, talvez a mais urgente diga respeito à elegância. Não se trata aqui da estética do vestuário ou da ostentação de formalidades. Refiro-me à elegância como atitude ética, postura discreta, rigor no trato com os outros e sobriedade no discurso. Uma elegância que nasce da nobreza de espírito e se expressa, sobretudo, na forma como nos apresentamos, nos relacionamos e conduzimos nossas ações.

Em sua essência, a Maçonaria é – ou deveria ser – um espaço de construção moral e intelectual. Um discreto laboratório de virtudes, onde o cultivo do caráter se sobrepõe à busca por reconhecimento exterior. Contudo, observa-se, por vezes, um descompasso entre a intenção e a forma. Por vezes, numa ânsia de afirmação, multiplicam-se títulos, nomeações e estruturas que evocam grandeza, mas que nem sempre encontram equivalência em ações ou produções que lhes dêem sustentação. Como nos lembra o filósofo Emmanuel Levinas, “a ética precede a ontologia” e, por extensão, precede também qualquer prestígio. Não é o nome que dignifica o homem, mas sua conduta. E aqui, não falo da estrutura simbólica ou do ritualismo interno da Ordem, mas da maneira como nos apresentamos extramuros, perante a sociedade.

Multiplicam-se, com frequência, espaços, iniciativas e eventos que adotam nomenclaturas evocativas de prestígio, títulos que remetem, no imaginário coletivo, a instituições consagradas pelo saber ou pelo rigor intelectual. No entanto, quando esses nomes não são acompanhados de exigência, profundidade ou compromisso com a excelência, o resultado é uma percepção pública de artificialidade. E, inevitavelmente, aquilo que deveria inspirar respeito pode acabar reduzido ao deboche. Não é necessário nomear diretamente essas instâncias; o leitor atento reconhecerá o fenômeno. O que se propõe aqui é apenas um convite à reflexão: será que o conteúdo corresponde à forma? Ou será que, ao adotar certas denominações, sem o devido lastro, corremos o risco de banalizar o próprio ideal que pretendemos valorizar?

Essa discussão não se restringe ao campo simbólico das palavras. Estende-se também à conduta, à postura e ao espírito com que se realizam os diversos encontros maçônicos. A forma como uma confraternização é conduzida, por exemplo, revela muito sobre os valores cultivados em uma Loja. Será que, ao redor do mundo, essas celebrações mantêm o mesmo padrão, o mesmo espírito? E nós, brasileiros, como nos apresentamos nessas ocasiões? Como falamos, como brindamos, como recebemos um Irmão? Até que ponto nossos modos revelam a essência iniciática que deveria nos diferenciar do mundo profano?

Não se trata, aqui, de negar ou reprimir a alegria, nem tampouco de rejeitar as marcas culturais que nos tornam únicos. Somos brasileiros, e nossa espontaneidade é parte da nossa riqueza. No entanto, cabe perguntar: a cultura maçônica que expressamos reflete, de fato, o conteúdo maçônico universal que herdamos? Ou temos importado, muitas vezes sem perceber, práticas e comportamentos típicos do mundo profano, na linguagem, na informalidade, no excesso de teatralidade? 

Tomemos novamente o cuidado com os títulos, os cargos e as estruturas. Quando criamos algo e o nomeamos com referências que remetem à erudição ou à excelência, mas não garantimos o mesmo padrão no conteúdo, corremos o risco de transformar uma bela intenção em caricatura. Todos conhecemos exemplos, aqui e acolá, de organizações que se anunciam com nomes solenes, mas cujos frutos são escassos ou desconectados da realidade. E, mais uma vez, recordemos: “a ética precede o saber”. A verdadeira elevação está na responsabilidade diante da palavra proclamada. O uso solene de um título sem correspondente em prática ou substância pode esvaziar, em vez de dignificar.

Esse esvaziamento também se manifesta quando símbolos tornam-se fetiches, e o espaço que deveria ser de elevação torna-se palco para vaidades. Quando reuniões se assemelham mais a confrarias sociais do que a oficinas de aperfeiçoamento moral, o espírito iniciático se fragiliza. O filósofo Martin Buber, em sua filosofia do diálogo, propõe que a relação entre o “Eu” e o “Tu” seja verdadeira, aberta, autêntica. Por vezes, o “Eu” inflado, autocentrado, seduzido pelo aplauso interno, e desconectado da alteridade, pode vir a ser o comum e rotineiro nesses espaços. A linguagem, os eventos, os discursos e as festas podem se tornar expressões de exibicionismo ou de informalidade incompatível com os valores que proclamamos.

Por outro lado, também merece atenção o comportamento daqueles que, por zelo à tradição, opõem-se a qualquer movimento de renovação. Apegam-se a formas que, muitas vezes, já não refletem a essência do que se quer preservar. Franz Rosenzweig, escreveu: “O eterno não é o imóvel, mas o que renasce sempre.” A resistência absoluta à mudança, quando desprovida de reflexão, também pode deformar a tradição. Afinal, o que é vivo se transforma e fazê-lo com elegância é um ato de respeito à própria permanência.

Portanto, não se trata de combate, mas de convite. Um chamado à introspecção: será que temos sido, de fato, um exemplo para a sociedade? Nossa linguagem, nossos modos, nossas estruturas são reconhecidos como expressão de ética, sobriedade e profundidade? Ou será que estamos, aos poucos, nos tornando irrelevantes ou caricaturais justamente por abandonarmos a elegância silenciosa que sempre distinguiu os iniciados?

A verdadeira Maçonaria se mede por sua capacidade de transformar, com discrição e substância, o mundo à sua volta. A marca do verdadeiro iniciado está na sobriedade com que vive, não nos títulos que ostenta. Ser justo, ser profundo, ser coerente, eis a elegância genuína. E, talvez, este seja o momento de reavaliar a cultura dos excessos simbólicos, da intelectualidade de vitrine, das pompas sem propósito. Não somos maiores por dizê-lo, mas por sê-lo. A grandeza está na forma como acolhemos o outro, não na maneira como nos apresentamos a ele com superioridade.

Este texto não é uma acusação, tampouco um lamento. É, antes, um espelho, como no processo iniciático e como a necessidade de estarmos sempre a mergulhar em um VITRIOL oferecido com serenidade e respeito. Devemos purificar o pensamento para que a verdade possa resplandecer. Que possamos, então, refletir sobre as palavras que usamos, as estruturas que criamos e a imagem que projetamos.

Que a Maçonaria brasileira, rica em história e potencial, veja em toda crise e escuridão uma oportunidade para revelar Luz. Oportunidade de exercer sua referência moral, intelectual e espiritual. Que sejamos, como Irmãos, construtores de pontes, e não de palcos. E que nossa maior distinção seja, sempre, a humildade com que servimos ao ideal de tornar a humanidade mais feliz, com elegância, com substância e com verdade.


Publicado pela Revista "O Prumo", Edição 280 - Maio / Junho de 2025
Link: https://gosc.org.br/3d-flip-book-category/revista-o-prumo/
Data: 30 de setembro de 2025

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