sábado, 15 de novembro de 2025

Entre a Forma e o Conteúdo: Uma Análise Junguiana da Crise Educacional no Rito Escocês Antigo e Aceito no contexto brasileiro

*Artigo apresentado por ocasião do 1º Congresso Brasileiro de Pesquisa Maçônica, realizado no dia 15 de novembro de 2025, em Brasília, pela GLMDF. 



Entre a Forma e o Conteúdo: Uma Análise Junguiana da Crise Educacional no Rito Escocês Antigo e Aceito no contexto brasileiro

1. Introdução

  O Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.), um dos sistemas maçônicos mais praticados globalmente, enfrenta uma crise de eficácia que, em sua essência, pode ser entendida como uma crise educacional (OLIVEIRA; LERAY; FERREIRA, 2021). Essa crise não se limita à proliferação de iniciativas desconexas ou à multiplicidade de instituições dispersas, que frequentemente fragmentam esforços ou acabam por se concentrar em atividades e eventos sociais (LORA, 2025b). O problema central investigado por este artigo é a transformação do R.E.A.A. de um sistema educativo iniciático, fundamentado no simbolismo  como ferramenta de transformação interior, em uma instituição de caráter predominantemente social, administrativo e filantrópico, onde o ritual é esvaziado de seu significado mais profundo e reduzido a protocolo cerimonioso (TOWEY, 2022; HASSELMANN, 2014).

  Diante desse contexto, a pergunta de partida que orienta esta investigação é: Como o abandono de uma pedagogia centrada no simbolismo e no processo de individuação contribuiu para a crise educacional no R.E.A.A., e de que forma a psicologia analítica de Carl Gustav Jung oferece um quadro teórico para sua revitalização?

  O objetivo geral deste trabalho é analisar a crise educacional no R.E.A.A. por meio das lentes da psicologia junguiana e da tradição filosófica maçônica, argumentando que a superação desta crise depende da revalorização do simbolismo como eixo de uma pedagogia da individuação. Para atingir este objetivo, traçam-se os seguintes objetivos específicos: primeiramente, contextualizar historicamente o desvio do foco iniciático para o social na Maçonaria, examinando as transformações socioculturais que, segundo autores como Dumenil (1984) e Towey (2022), reconfiguraram a função das Lojas que utilizam o rito ao longo do século XX. Em segundo lugar, apresentar os fundamentos de uma pedagogia simbólica maçônica, resgatando a intenção filosófica original do R.E.A.A. a partir da Escola Filosófica  consolidada por autores como Pike (1871), Wilmshurst (1924) e Hammer (2010). Num terceiro momento, o trabalho busca articular os conceitos junguianos de símbolo, arquétipo e processo de individuação com a jornada iniciática maçônica, demonstrando os paralelos teóricos entre a psicologia analítica e o sistema de graus do Rito. 

  Por fim, e com base nessa fundamentação, almeja-se propor diretrizes teóricas como recomendações para o processo pedagógico do R.E.A.A. que reinstitua o simbolismo como ferramenta central de autotransformação e eixo de uma educação maçônica renovada. A hipótese que se sustenta é a de que a crise educacional do R.E.A.A. é fundamentalmente uma crise de significado, resultante da negligência da dimensão simbólica e de seu poder transformador. Sua superação está condicionada à adoção de um modelo pedagógico que compreenda e utilize o simbolismo ritualístico como via privilegiada para facilitar o processo de individuação do maçom, tal como conceituado por Carl Gustav Jung e defendido pelos fundadores da tradição filosófica do REAA . 

  Quanto à metodologia, este artigo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza teórico-bibliográfica e analítica. Utiliza-se o método de análise crítica de conteúdo de fontes primárias – notadamente as obras de Carl Gustav Jung, Albert Pike, W.L. Wilmshurst e Andrew Hammer – e fontes secundárias – como os trabalhos históricos de Lynn Dumenil e a compilação contemporânea de Christopher Towey, dentre outros. A análise busca identificar convergências teóricas entre a psicologia analítica e a tradição maçônica, construindo um argumento coerente para responder ao problema de pesquisa.


2. A Trajetória de uma Crise Anunciada

     A literatura estrangeira identifica essa crise como decorrente da priorização do crescimento quantitativo em detrimento da qualidade filosófica e educativa, uma tendência que se intensificou ao longo do século XX (TOWEY, 2022). No contexto brasileiro, observa-se fenômeno análogo, especialmente em anos recentes, quando diversas pesquisas e artigos passaram a dedicar-se ao problema da chamada evasão maçônica (MORAIS, 2017; 2019; 2020). Como resposta a esse diagnóstico, Potências e Lojas maçônicas passaram a direcionar esforços principalmente para a abertura de novas Oficinas, o estímulo a iniciações e a criação de iniciativas voltadas à atração de neófitos, o que, por consequência, se não for administrado de maneira atenta, acaba por reforçar a mesma lógica de valorização da quantidade em prejuízo da qualidade formativa. 

  Lynn Dumenil (1984), em sua análise da Maçonaria americana, identificou, naquele contexto, que as Lojas passaram por uma significativa mudança de função após a Primeira Guerra Mundial, transformando-se de espaços de reflexão filosófica e ritualística em clubes sociais orientados para atividades cívicas e de entretenimento. Conforme assinala a autora, Lodges that were once sanctuaries would adapt and change into more open and commercially orientated clubs (DUMENIL, 1984). No contexto brasileiro, observa-se fenômeno análogo. Se no século XIX e início do XX a Maçonaria destacou-se pela atuação de intelectuais e influência em projetos de nação (COLLUSSI, 2003), nas décadas recentes houve uma transição para um perfil mais social, onde atividades comunitárias e assistenciais sobrepuseram-se à reflexão ritualística e ao estudo simbólico (LORA, 2025b). No Brasil, contudo, esse movimento não se deve a um americanismo ou a pressões geopolíticas, mas a fatores endógenos. Conforme apresentado por pesquisas realizadas pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB) e pela Grande Loja Maçônica do Distrito Federal (GLMDF), a dificuldade de reter membros está ancorada em problemas como conflitos interpessoais e disputas por poder – citados como a principal causa, com 26,3% na pesquisa da GLMDF (MORAIS, 2020) e entre 41% e 53% na pesquisa da CMI (2018). Além disso, sessões consideradas enfadonhas e sem propósito, bem como a frustração em relação às expectativas não atendidas dos membros, também contribuem para a evasão. Esses fatores são agravados pela falta de uma formação maçônica consistente - uma deficiência historicamente reconhecida na instituição e evidenciada pelo dado de que menos de 5% dos maçons brasileiros conhecem os conceitos fundamentais  da Ordem (CMI, 2018) - e por lacunas na administração e liderança das Lojas, que falham em reter especialmente os membros mais jovens e com menor tempo de iniciação. A priorização da abertura de novas Lojas e do recrutamento massivo – em resposta à evasão – pode aprofundar esse viés, relegando a formação filosófica a um plano secundário. Como resultado, é possível pensar em um enfraquecimento do caráter iniciático e reflexivo que outrora definiu a Maçonaria, justificando, em parte, a percepção popular de que a Ordem vive mais de suas glórias passadas do que de uma atuação relevante e transformadora no presente.

  Visionários do R.E.A.A. já alertavam para este risco, principalmente da Escola Filosófica (LEE, 2022), como Albert Pike, que, em Morals and Dogma (1871), defendia que a Maçonaria deveria preservar seu núcleo filosófico, distanciando-se de tendências meramente filantrópicas. Muitos anos antes da referida pesquisa sobre evasão maçônica no Brasil, Pike já criticava a indiferença em relação ao estudo do simbolismo, notando que poucos maçons ainda regard the symbolism of Freemasonry as of any real value, or care to study it  (DE HOYOS, 2023). Em diversas passagens da referida obra, Pike admoesta o leitor-maçom a ir além da aparência, da moral e do dogma dos graus, convidando-o a um mergulho interpretativo que exige tempo, dedicação e erudição a partir da análise do símbolo, ou seja, o entendimento de sua própria obra, assim como do REAA exige ultrapassar a noção de moral e de dogma. Seu discurso é, em grande medida, uma exortação contra a passividade intelectual e uma defesa vigorosa da investigação pessoal, da autoanálise, da reflexão, o VITRIOL . Para Pike (1871), a falha em empreender essa jornada de aprofundamento representa não apenas uma oportunidade perdida, mas uma distorção do propósito essencial da Maçonaria como via de conhecimento e autotransformação, assim como assinala Hasselmann (2014).

  Na mesma linha, W.L. Wilmshurst, em The Masonic Initiation (1924), também já alertava para a superficialidade com que os rituais de iniciação eram compreendidos e vividos pelos maçons de seu tempo. Para ele, uma das maiores urgências da Ordem consistia justamente em reeducar seus membros quanto ao verdadeiro propósito dos símbolos e cerimônias, como afirma: no more is needed and useful work is to be done in the Masonic Order today than the education of its members in the true purpose of rites of initiation (WILMSHURST, 1924, p. 10). Wilmshurst observava, na década de 1920, uma clivagem entre aqueles que buscavam efetivamente a Luz — entendida como elevação espiritual e intelectual — e os que se satisfaziam com uma filiação nominal, condecorativa ou honorífica, desprovida de busca hermeneutica ou transformação interior.

  Essa percepção mantém-se atual quando se observa a proliferação de iniciativas sob o selo da Maçonaria que, embora revestidas de terminologia filosófica ou científica - como é o caso de instituições que recebem o beneplácito de Potências Maçônicas, - mas frequentemente distanciam-se do núcleo simbólico-iniciático da Ordem. Muitas dessas ações, sejam elas filantrópicas, literárias ou sociais, ainda que meritórias em sua intenção, ao tempo em que ampliam o escopo de atuação da Ordem, correm o risco de reduzir a Maçonaria a mais uma associação civil comunitária ou clube de assistência, esvaziando seu caráter distintivo como via de autoconhecimento e desenvolvimento ético-simbólico. Ao privilegiar atividades externas em detrimento do exame aprofundado dos seus próprios fundamentos, a instituição acaba por assimilar-se a outras formas de sociabilidade existentes, abdicando de sua potencialidade educativa como espaço de formação humana profunda e perpetuando, assim, a cisão entre aparência ritual e substância doutrinária. Nesse sentido, há espaço para muita reflexão e pesquisa que possa identificar ou auferir a compreensão da Ordem pelos próprios maçons. 

  No período posterior à Segunda Guerra Mundial, conforme documentado nas Proceedings da Grande Loja da Califórnia (1955), observou-se uma nítida transformação na dinâmica das Lojas maçônicas, que passaram a encurtar a duração de suas reuniões e a limitar as discussões de cunho ritualístico e simbólico, privilegiando, em seu lugar, atividades de sociabilidade e confraternização. Como assinala Towey (2022), "Lodges make their meetings shorter and keeping discussion within Lodge to a minimum so that the lodge members can join in fellowship sessions after the Lodge is closed". Essa tendência, que pode ser notada no comportamento de muitos maçons no Brasil, reflete uma opção pela brevidade e informalidade, em detrimento da profundidade simbólica, ainda que existam iniciativas para reverter esse quadro, principalmente após o período de pandemia do Covid 19, onde os encontros virtuais deram espaço a novas tentativas de se voltar ao estudo e à formação maçônica .

  Independentemente da validade dessa orientação, que pode ser objeto de debate entre estudiosos, o cerne da questão reside na consequente marginalização do conteúdo simbólico e filosófico em favor de agendas administrativas, logísticas, meramente sociais ou ainda disfarçada de propósito intelectual pelas iniciativas literárias existentes. Se o pouco tempo de reunião é majoritariamente consumido por questões procedimentais e a abertura para a reflexão coletiva sobre símbolos, alegorias e ensinamentos é restrita, a formação maçônica tende a ficar relegada à iniciativa individual ou a grupos de estudo externos, que, embora válidos, não substituem o caráter comunitário e ritualístico do aprendizado em Loja. Assim, coloca-se em xeque a própria função formadora do espaço templário, que deveria servir como ambiente privilegiado para a interpretação compartilhada e o aprofundamento iniciático (MACKEY, 1882). Novamente, essa reflexão não desconsidera o valor do aspecto comunitário e filantrópico da Maçonaria, mas ressalta a necessidade de reequilibrar as prioridades, a fim de que a instituição não diminua sua identidade primordial como escola de simbolismo e filosofia, ou seja, seu aspecto pedagógico.

  Essa dinâmica operacional pode transformar progressivamente as Lojas em fábricas de graus, nas quais a iniciação se reduz a um procedimento mecânico, esvaziado de seu potencial educativo e, sobretudo, de sua capacidade de despertar no indivíduo o processo de individuação , entendido como a assimilação consciente de símbolos e arquétipos visando ao aprimoramento ético e filosófico (JUNG, 2021). Se, ao final de uma iniciação , não se instaura no recipiendário um movimento de autorreflexão prolongada, capaz de ecoar por dias ou mesmo semanas, todo o aparato simbólico e performático do ritual falha em cumprir sua função transformadora. Nesse caso, a experiência limita-se a mero protocolo, destituído do caráter vivencial que define uma ordem iniciática genuína, tal qual foi concebida. 

  É plausível supor que essa desconexão entre expectativa e realidade ritualística contribua significativamente para a evasão maçônica, especialmente entre aqueles que ingressam em busca de profundidade filosófica e crescimento interior. Não por acaso, o declínio numérico vivido pela Maçonaria americana a partir da década de 1960 refletiu, sobretudo, uma crise qualitativa substancial. Em 1966, a Grande Loja da Califórnia alertava: "the biggest problem concerning Freemasonry is the preservation of Freemasonry’s fundamental philosophy and Landmarks" (TOWEY, 2022). Percebe-se, assim, que o problema elencado não era apenas na preservação dos Landmarks, mas, necessariamente, implicava na transmissão efetiva do conteúdo simbólico-filosófico que confere sentido à jornada maçônica, sob pena de a instituição tornar-se progressivamente irrelevante para aqueles que procuram mais do que sociabilidade ou vivência comunitária.

  É neste contexto que se insere a demanda contemporânea por uma experiência maçônica mais significativa, educativa, articulada por autores como Andrew Hammer. Em Observing the Craft (2010), Hammer defende "a restauração da Maçonaria à intenção histórica e filosófica de seus fundadores" (HAMMER, 2010), argumentando que a Ordem deve privilegiar a excelência ritualística, o estudo profundo e a busca interior sobre o mero recrutamento em massa, uma clara defesa dos valores da corrente francesa, principalmente voltada para o REAA, que muito pode ser embasada na chamada Escola Filosófica da Maçonaria (LEE, 2022).

  Portanto, o movimento por uma Maçonaria Observante não é apenas uma reação à modernidade, mas uma reafirmação consciente da linhagem filosófica do REAA, cujas raízes mergulham no trabalho de figuras que se preocupam com a questão pedagógica de maneira profunda e simbólica, seminalmente francesas, como Martinez de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin, Jean-Baptiste Willermoz, e, posteriormente, Eliphas Lévi e Papus , que estruturaram um sistema de pensamento onde o ritual é um veículo para a transformação filosófica e do autoconhecimento. Esta tradição contrasta visivelmente com a perspectiva de outras Obediências e Ritos que, embora valorizem a história operativa, a caridade e a moralidade, frequentemente deixam em segundo plano as investigações metafísicas mais profundas que são a espinha dorsal do Escocesismo, percebido pela riqueza das instruções em todos os seus graus.

  Esta recente mudança de mentalidade refletiu-se nas políticas das Potências, que passaram a reinvestir em educação maçônica por meio de simpósios, conferências e parcerias acadêmicas . No entanto, ainda persiste a crise educacional latente na Ordem, especialmente no R.E.A.A., um fenômeno complexo enraizado em décadas de priorização do crescimento numérico em detrimento da profundidade iniciática. A realização do Primeiro Congresso de Pesquisa Maçônica, a ser realizado em 2025, no Brasil, é um sintoma claro desse diagnóstico: não apenas reconhece a crise de maneira empírica – pois é a primeira vez que se realiza um Congresso para pesquisa maçônica -, mas também representa um esforço coletivo para superá-la através da reflexão estruturada e acadêmica, especialmente com o tema da educação em destaque. Iniciativas similares já haviam surgido em outros países, como a emblemática parceria entre a Grande Loja da Califórnia e a Universidade da Califórnia (UCLA) em 2009, que marcou um deslocamento programático do foco na quantidade para a qualidade (TOWEY, 2022). Esse movimento atraiu um novo perfil de membros, que busca ativamente uma iniciação mais rigorosa e filosoficamente significativa e pode antecipar o mesmo no caso brasileiro.

  Todavia, o principal desafio reside em romper com um formato institucional já cristalizado pelo tempo e retomar a proposta original do REAA como um sistema de educação simbólica. Essa abordagem não é intuitiva, pois demanda a transmissão de um conhecimento que vai além do intelectual, é conhecimento que requer mediação prática, representada pela máxima da relação entre Mestre e Aprendiz. É aqui que a figura do padrinho (proponente) assume papel crucial, atuando como guia não apenas para os estudos, mas para a vivência do simbolismo como ferramenta de autotransformação (LORA, 2025a).

  É precisamente neste ponto que se encontra o cerne para uma reforma educacional genuína na Maçonaria contemporânea: a compreensão de que o simbolismo maçônico no REAA, desde a transformação da Pedra Bruta em Pedra Polida até as operações alquímicas de Solve et Coagula, constitui um caminho de individuação profundamente radicado nas tradições filosófica, alquímica e cabalística . Esse processo, longe de ser mero exercício intelectual, representa uma jornada de autotransformação em que o iniciado, por meio dos símbolos e rituais, trabalha sua própria matéria interior — a prima materia  — rumo à realização de seu potencial filosófico. Sem essa compreensão, a reflexão maçônica permanece apenas no ideal kantiano, isto é, moral e ético. Portanto, não ultrapassa o que grandes tradições filosóficas chamam de consciência, olamot, verdade, realidade, etc. 

  No entanto, essa jornada, ainda que íntima e pessoal, não se faz no isolamento. Ela demanda a guia experiente de um Mestre, ou seja, no padrinho. Este não é apenas um indicador ou um protocolar apresentante, proponente; é o condutor que encarna a relação Mestre-discípulo, tão cara às ordens iniciáticas. Por meio do exemplo, da transmissão oral e do acompanhamento próximo, o padrinho assegura que o neófito não apenas compreenda, mas vivencie o simbolismo em sua profundidade transformadora. A figura de um orientador, Mestre, professor, é a principal chave para entender a crise maçônica educativa, mas, também, a solução, que no fim reside em preparar bons maçons, pois todos são padrinhos em potência. 

  Aqui reside a essência do ciclo pedagógico maçônico: um bom padrinho só pode existir se, por sua vez, tiver sido guiado por um Mestre igualmente dedicado e comprometido. Este é o princípio hermético e cabalístico da causa e efeito, da semente e da árvore — onde o fruto carrega em si a natureza e a qualidade da semente que o originou. É uma manifestação prática e evidente do Ouroboros , a serpente que morde a própria cauda, simbolizando um ciclo eterno de renovação e transmissão onde o fim se alimenta do início, como uma vela acesa é capaz de acender outra ou que a cura está no próprio veneno. Por isso a solução para o problema está no próprio problema neste caso.

  Dessa forma, a educação maçônica transcende o aspecto instrucional e se afirma como um ciclo contínuo de reprodução filosófica. Cada Mestre bem formado torna-se, por sua vez, um semeador de qualidade, perpetuando assim a corrente de transmissão iniciática. Romper esse ciclo, seja pela falta de formação, seja pela negligência no acompanhamento, é interromper a própria regeneração da Ordem . Portanto, revitalizar a experiência maçônica exige reinvestir nessa relação primordial, assegurando que cada elo da cadeia seja forte o suficiente para sustentar o próximo, numa reprodução infinita do divino dentro da realidade finita da comunidade maçônica, micro e macrocosmicamente.


3. Jung e a Tradição Simbólica Maçônica

  A superação desta crise exige um retorno aos fundamentos. Carl Gustav Jung pode ser lembrado aqui por oferecer um quadro teórico relevante para compreender a potência transformadora inerente ao sistema pedagógico maçônico, principalmente no caso do REAA que é iniciático e simbólico. A esse respeito, Jung observou que o inconsciente fala na linguagem de símbolo. Uma imagem deve ser entendida como tendo um espectro de significados possíveis, que se relacionam por meio de um tema significativo (BOBROFF 2024:113). Segundo Jung, o símbolo distingue-se radicalmente do mero signo por sua natureza transcendente e capacidade de expressar conteúdos psíquicos parcialmente desconhecidos pela consciência, funcionando como uma ponte entre o consciente e o inconsciente (SERBENA 2010). Enquanto um signo (como uma seta de trânsito) representa algo conhecido e de significado unívoco, o símbolo possui uma carga arquetípica e polissêmica, portador de energia libidinal e mediador de processos de transformação psíquica (SILVA JUNIOR, 2016). Por exemplo, a cruz cristã, como signo, identifica publicamente o cristianismo, mas como símbolo, encarna a união de opostos (como o humano e o divino, a morte e a renovação), expressando um conteúdo que transcende sua interpretação literal e conecta-se ao arquétipo de sofrimento e redenção. Portanto, a experiência de observar ou recordar esse símbolo no contexto religioso para um cristão tem uma força de introspeção muito maior do que simplesmente uma representação. Conhecer esse significado profundo possibilita uma transformação. Nesse sentido, cabe refletir se os símbolos maçônicos proporcionam entendimento ou contemplação semelhante após seu estudo e exame. Não do ponto de vista sacro ou religioso, mas de seu profundo significado contemplativo.

  Jung estabelece uma distinção fundamental entre símbolo, alegoria e signo, afirmando que o símbolo "não é uma alegoria nem um signo, mas a imagem de um conteúdo que, em grande parte, transcende a consciência” (JUNG, 2013). Esta característica de transcendência confere ao símbolo sua função crucial no processo de individuação, servindo como ponte para integração de conteúdos psíquicos profundos. A natureza dinâmica do símbolo é reiterada na obra junguiana: “O símbolo vivo é a expressão de uma coisa não encontrada de outra maneira e, portanto, desconhecida” (JUNG, 2011, 287). Esta dinamicidade manifesta-se na capacidade do símbolo de emergir do inconsciente como um mediador ativo entre as instâncias psíquicas, "ou seja, ele está vivo e mobiliza a energia onde o consciente encontra sentido e a razão desconhece" (CARDOSO, 2018).

  Dessa forma, perceber essa visão ou entendimento do símbolo significa passar a compreender a realidade psíquica como um diálogo contínuo entre o consciente e o inconsciente, onde imagens, sonhos e fantasias deixam de ser meros signos literais para se tornarem portas de acesso a conteúdos arquetípicos universais e a aspectos negados do Self . Essa percepção desencadeia o processo de individuação, no qual a pessoa, ao interpretar e se relacionar com os símbolos, não busca uma decifração única, mas permite que essas imagens mediadoras integrem opostos psíquicos, transcendam conflitos e ampliem a consciência, transformando a experiência de vida em uma jornada contínua de autoconhecimento e conexão com sentidos profundos e coletivos da existência. É nesse sentido que as máximas maçônicas podem ser experimentadas de forma plena, isto é, causando uma verdadeira transformação do Homem de Chumbo em Homem de Ouro ou na Pedra Bruta em Pedra Polida. 

  Embora o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) não explicite formalmente um método pedagógico de alto grau de sofisticação, a percepção da capacidade da linguagem simbólica, anterior à própria Maçonaria e presente em diversas tradições, permite compreender a proposta iniciática da Ordem e seu potencial de autotransformação por meio de seus fundadores, obras e biografias. Nesse sentido, o princípio do VITRIOL pode ser entendido como análogo ao conceito de individuação. A questão central reside no fato de que esse processo é contínuo ao longo de todos os graus do REAA. Se não for assim percebido, compreendido e praticado ao longo de toda a jornada maçônica, a força contida nesse símbolo perde sua eficácia e pouco contribui para a transformação interior declaradamente promovida pelos rituais de cada Grau. Essa premissa é reiteradamente reforçada em obras de referência da Escola Filosófica maçônica, especialmente em Morals and Dogma de Albert Pike (1871). Essa concepção do símbolo como força ativa  é central para se compreender a função dos rito. O processo de individuação, definido por Jung como o caminho de integração entre consciente e inconsciente rumo à totalidade psíquica (o Self), encontra um paralelo na jornada do REAA, ou seja, a lapidação da Pedra Bruta (em si mesmo), onde o iniciado trabalha para superar suas imperfeições. Portanto, o conserto em si mesmo, a cura em si mesmo, como um processo alquímico de purificação até se realizar a Grande Obra. 

  Os instrumentos e símbolos maçônicos operam, portanto, como veículos de arquétipos – "formas ou imagens de natureza coletiva, que ocorrem praticamente em toda a Terra como constituintes dos mitos e, ao mesmo tempo, como produtos individuais autóctones de origem inconsciente" (JUNG, 2000, 45). O REAA, em sua estrutura, atua de modo análogo às operações alquímicas descritas por Jung (a calcinatio, a solutio, a separatio), conduzindo o iniciado através das fases de nigredo (negrume inicial), albedo (purificação) e rubedo (realização final). As iniciações podem ser observadas por meio dessa máxima alquímica que tem paralelo na própria cabalá de modo simbólico. O processo iniciático e a representação é sempre a mesma, apenas ensinado ou examinado por símbolos diferentes, mas com o mesmo fim .

  Esta visão junguiana encontra ressonância plena com a intenção original dos idealizadores da tradição filosófica maçônica, que concebiam a Maçonaria como um caminho de autoconhecimento e transformação. Para Albert Pike (1871), os símbolos maçônicos não eram meras representações, mas veículos de verdades filosóficas imutáveis, cujo estudo metódico proporcionava ao iniciado a possibilidade de ascender ao entendimento profundo de si mesmo e do universo. Segundo Pike, cada grau maçônico é um passo na jornada de elevação moral e intelectual, onde os símbolos funcionam como chaves para o autoconhecimento e o aperfeiçoamento humano.

  Por sua vez, pensadores como Martinez de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin e Jean-Baptiste Willermoz foram pioneiros ao estruturar sistemas filosóficos no qual o ritual não era apenas um conjunto de cerimônias, mas um meio efetivo para a reintegração do homem ao seu estado original de pureza e sabedoria divina. Para esses autores, a Maçonaria operava como um rito de passagem que permitia ao iniciado restabelecer sua conexão com forças espirituais superiores, promovendo uma transformação interior fundamental (Pasqually, 1775; Saint-Martin, 1791; Willermoz, 1778).

  Eliphas Lévi e Papus, influentes maçons do século XIX, ampliaram essa visão ao integrar a Maçonaria com a Cabalá e o Hermetismo, reconhecendo no simbolismo maçônico um elo entre as tradições filosóficas mais antigas e a evolução espiritual do ser humano. Lévi, em suas obras como Dogme et Rituel de la Haute Magie (1855), associava o simbolismo dos graus maçônicos a um mapa para a ascensão espiritual, onde a Maçonaria servia como uma escola iniciática que, por meio dos rituais e da meditação sobre os símbolos, conduzia o iniciado à compreensão dos mistérios universais.

  Para todos esses autores, a Maçonaria era vista como um sistema educativo iniciático robusto, no qual o templo simbolizava a sala de aula, o ritual representava o currículo e a experiência simbólica era o método de ensino. A pedagogia maçônica, fortemente influenciada pelos ideais iluministas, operava por meio de uma tríade essencial: exposição, que se manifestava no ritual encenado, contemplação, que envolvia a meditação profunda sobre os símbolos e seus significados, e aplicação, que correspondia à vivência dos princípios e ensinamentos no cotidiano do iniciado. Essa pedagogia não visava apenas o desenvolvimento intelectual, mas o despertar de uma consciência, em que o conhecimento se tornava a chave para a transformação espiritual e moral, alinhando o indivíduo com as leis universais e com sua própria essência divina.

  Com isso, resta discutir o esvaziamento do simbolismo que reflete, essencialmente, na robustez pedagógica necessária capaz de responder e atender muitos dos temas aqui elencados e que, de certa forma, ressoam no contexto da evasão maçônica.


 4. Análise e Discussão: O Esvaziamento do Símbolo e o Ciclo da Transmissão

 

  A análise crítica empreendida neste estudo, baseada nas fontes da Escola Filosófica da Maçonaria (PIKE, 1871; WILMSHURST, 1924) e da teoria junguiana (JUNG, 2011; 2013), bem como na revisão de diagnósticos históricos e contemporâneos (DUMENIL, 1984; TOWEY, 2022; MORAIS, 2020), permite argumentar que a crise educacional do R.E.A.A. manifesta-se concretamente como um esvaziamento progressivo da função simbólica do ritual. Este esvaziamento opera uma dupla transformação negativa: converte o símbolo, entendido na perspectiva junguiana como um organismo vivo e transformador (JUNG, 2011), em mero signo decorativo ou protocolo burocrático; e reduz a Loja, potencial "laboratório de individuação", a um espaço de sociabilidade ou administração onde o tempo dedicado à introspecção e à hermenêutica coletiva dos símbolos é marginalizado.

  A metodologia de análise crítica aplicada revela que esse fenômeno não é aleatório, mas sintoma de uma ruptura no ciclo da transmissão iniciática. A relação Mestre-aprendiz, eixo central da pedagogia maçônica tradicional (LORA, 2025a), é frequentemente substituída por um vínculo burocrático. Sem a mediação de um Mestre que encarne e transmita a vivência do simbolismo – atuando como o senex (arquétipo do ancião sábio) que guia o puer (arquétipo do iniciante) na jornada junguiana –, o processo de individuação fica truncado. O neófito, mesmo exposto aos ricos símbolos do Rito, carece das chaves hermenêuticas para uma interpretação significativa que ressoe em seu inconsciente, conforme previsto pela psicologia analítica (SERBENA, 2010). O ritual, portanto, falha em operar como um símbolo vivo e degenera em repetição estereotipada, o que corrobora a hipótese central deste trabalho sobre a crise ser, fundamentalmente, uma crise pedagógica.

  Este diagnóstico é confirmado pelos dados quantitativos citados (CMI, 2018; MORAIS, 2020), que apontam a superficialidade formativa e a frustração com a experiência ritual como causas primárias da evasão. A consequência direta, observável pela análise das práticas descritas nas fontes secundárias (TOWEY, 2022), é a cisão entre o intelecto (o conhecimento sobre a Maçonaria) e o ser (a transformação através da Maçonaria). Sem a internalização vivencial, símbolos fundamentais como a lapidação da Pedra Bruta ou o princípio alquímico Solve et Coagula tornam-se conceitos abstratos, destituídos de seu poder de catalisar a transformação psíquica. A progressão pelos graus, assim, arrisca-se a tornar-se um cumprimento de requisitos temporais, e não uma assimilação progressiva e interiorizada dos arquétipos apresentados em cada etapa.

  Dessa forma, a análise demonstra que o esvaziamento do símbolo e a quebra do ciclo de transmissão são faces da mesma moeda. Superar a crise exige, necessariamente, a restauração de uma pedagogia que reinstitua o símbolo como ferramenta central de autoconhecimento e reative a relação Mestre-discípulo como veículo privilegiado para sua transmissão eficaz. Esta conclusão fundamenta as diretrizes propostas a seguir, que visam intervir precisamente nestes pontos críticos identificados.


5. Considerações finais e recomendações


  A análise realizada procura confirmar a hipótese inicial: a crise educacional do R.E.A.A. é, em sua essência, uma crise de significado decorrente do esvaziamento do simbolismo. Por sua vez, a revitalização do REAA depende de um retorno consciente à sua raiz arquetípica autotransformadora, recentrando a experiência maçônica no símbolo como ferramenta de individuação. Para tanto, é possível propor algumas diretrizes teóricas para uma reforma pedagógica contemporânea:


1. Reformulação Pedagógica: Os manuais de instrução maçônica devem transcender a mera exegese intelectual dos símbolos, incorporando exercícios práticos de reflexão e meditação que facilitem sua internalização e vivência. A excessiva proteção do Rito, tratado como segredo inquestionável, mostra-se contraproducente, pois gera uma curiosidade que, não saciada, impede a compreensão profunda. É fundamental fomentar o diálogo aberto e a explicação antecipada – tanto fora quanto dentro do Templo, por meio de conversas informais entre Mestre e discípulo –, de modo a incentivar o questionamento e o debate sobre o Rito e a forma de trabalhar em Loja. O Templo funciona como laboratório prático, mas a "sala de aula" (presencial ou virtual) é indispensável para a fundamentação teórica, tal como era valorizado na tradição.

2. Capacitação além do Ambiente Ritual: A formação maçônica precisa incluir temas que ultrapassem o âmbito estritamente ritualístico, uma vez que grande parte do conteúdo do REAA tem suas raízes em outras tradições. Sem esse embasamento, os símbolos tornam-se confusos e pouco examinados. A exploração de parcerias e iniciativas conjuntas com outras Potências, Lojas ou mesmo Ordens afins pode enriquecer significativamente a compreensão do ritual. Investimentos em iniciativas educativas – como a escola EAD mantida pelo GOBSP, formada por Irmãos, ou parcerias da Secretaria de Educação e Cultura com instituições de ensino – representam caminhos viáveis para essa capacitação em escala, principalmente através de modalidades virtuais. 

3. Reestruturação do Tempo em Loja: As reuniões devem ser reequilibradas para garantir um espaço privilegiado à discussão profunda de símbolos e alegorias, reduzindo a preponderância de longos trâmites administrativos. É essencial priorizar o tempo de qualidade, tanto dentro quanto fora do Templo, integrando mecanismos virtuais para otimizar atividades. A modernização dos processos administrativos – utilizando os recursos tecnológicos disponíveis – é uma realidade da qual a Maçonaria só tem a ganhar, contribuindo diretamente para o revigoramento do entendimento simbólico e da educação maçônica.

4. Integração de Iniciativas Educativas: Academias maçônicas e Lojas de pesquisa devem atuar em sintonia com as Lojas Simbólicas, assegurando que o conhecimento teórico produzido se reverta em ferramentas práticas de autotransformação. Iniciativas conjuntas – como sessões abertas, visitas a instituições de estudo como a Sociedade de Teosofia ou a Rosacruz, entre outras – podem capacitar os Irmãos e estimular uma nova percepção sobre o simbolismo, que por vezes se encontra enrijecido. Essa abertura é vital para dar fôlego e um entendimento renovado à jornada maçônica.


  A Maçonaria sempre se transformou ao longo da história, das Old Charges operativas aos rituais especulativos , adaptando-se aos contextos sem perder sua essência simbólica. A proposta aqui esboçada não é revolucionária, mas evolutiva: uma acomodação necessária à modernidade líquida , que alterou profundamente as relações sociais, o tempo e a forma de aprender. Trata-se, em última instância, de resgatar o ideal pedagógico do REAA, pressionando por um retorno à centralidade do símbolo como ferramenta de individuação.

  Em última instância, o desafio é existencial. A Maçonaria, principalmente o REAA, deve escolher entre continuar como uma agremiação social ou reafirmar-se como uma via singular de educação do ser por meio da linguagem universal do símbolo, o simbolismo que dá nome a todas as Oficinais, afinal, todas são nomeadas como Lojas Simbólicas. O reencontro com esta missão essencial é o único caminho para restaurar sua prosperidade filosófica, que, como bem lembrado há mais de um século, reside não na riqueza material, mas na sua capacidade de conquistar as afeições de seus membros e guiá-los em sua jornada de individuação.


6. Bibliografia 

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terça-feira, 30 de setembro de 2025

The Imprint of Hebrew on the Ancient and Accepted Scottish Rite

Artigo Publicado no Square Magazine em 30 de setembro de 2025. 
Link: https://www.thesquaremagazine.com/mag/article/2025q4the-imprint-of-hebrew-on-the-ancient-and-accepted-scottish-rite/

The Imprint of Hebrew on the Ancient and Accepted Scottish Rite

Rui Samarcos Lora


Abstract

This scholarly examination investigates the profound and enduring relationship between the Hebrew language and the Ancient and Accepted Scottish Rite (AASR). It traces the historical trajectory of Hebrew from its ancient Semitic roots to its modern revival, critically analysing its pivotal role within Masonic ritual. The article identifies and elucidates common pitfalls in the transliteration and interpretation of key Hebrew terms, arguing that a precise, scholarly understanding is essential to unlocking the philosophical and symbolic depths of the Rite. By advocating for linguistic accuracy, this work seeks to restore the resonant power of Hebrew within the AASR, ensuring its allegories and moral teachings are transmitted with their intended clarity and impact.


Keywords: Hebrew, Ancient and Accepted Scottish Rite, Masonic Symbolism, Liturgy, Ritual, Transliteration, Kabbalah.

Introduction: The Sacred Tongue in a Masonic Context


The Ancient and Accepted Scottish Rite, a cornerstone of speculative Freemasonry, constitutes a complex tapestry woven from threads of ancient wisdom, philosophical inquiry, and profound symbolism. Among the most vibrant and enduring of these threads is the Hebrew language. Its presence is fundamental, infusing the Rite with a layer of sacrality and historical depth drawn directly from the wellspring of Judeo-Christian tradition. This article posits that a nuanced comprehension of Hebrew is indispensable for any serious student of the AASR. It will explore the historical resilience of the language, address the common hermeneutical challenges posed by its integration into Masonic liturgy, and demonstrate how a return to linguistic precision can illuminate the path toward a more authentic and enriched Masonic experience. The ultimate aim is to move beyond a superficial recitation of words towards a deeper, more meaningful engagement with the language that so powerfully shapes the identity and teachings of the Rite.


A Phoenix from the Ashes: The Historical Odyssey of Hebrew

Appreciating Hebrew's role in the AASR requires an understanding of its remarkable historical journey. The term "Hebrew" ( Ivrit ) is traditionally traced to Éber, a patriarch descended from Noah through Shem, from whom the term "Semitic" also derives (GOROVITS; FRIDLIN, 2006). Jewish tradition maintains that Éber retained the pristine Adamic language after the confusion of Babel, thus preserving it for his descendants. This origin story establishes Hebrew not merely as a language of men, but as Lashon HaKodesh the Sacred Language believed to be the very medium through which Divine law was revealed.

Hebrew, a member of the Northwest Semitic language family, flourished as the vernacular of the ancient Kingdoms of Israel and Judah. Its destiny, however, was irrevocably altered by the Babylonian exile in the sixth century BCE. During the captivity, Aramaic, the lingua franca of the Near Eastern empires, began to supplant Hebrew as the common tongue (OSTLER, 2006). Although Hebrew experienced a revival upon the return to Zion, the relentless currents of history Hellenistic, Roman, and Islamic conquests saw Aramaic and later Greek solidify their positions as the languages of commerce and administration. Consequently, Hebrew gradually retreated into the sanctified space of synagogue and study hall, becoming primarily a liturgical and literary language.

For nearly seventeen centuries, Hebrew persisted as a sacred vessel preserving Jewish identity across the Diaspora. Its triumphant revival as a modern spoken language in the late nineteenth and early twentieth centuries, culminating in its status as the official language of the State of Israel, represents a linguistic phenomenon without parallel. This resilience from vernacular to sacred vessel and back to a living tongue mirrors the Masonic journey of rediscovery and restoration, rendering its incorporation into the AASR profoundly resonant.


Beyond Babel: Distinguishing Hebrew from Aramaic

A common source of confusion within Masonic studies is the conflation of Hebrew with Aramaic. While both are Semitic siblings, their historical roles within the narrative underpinning the AASR are distinct. Aramaic was the language of international diplomacy and daily life during the Second Temple period; it was, notably, the vernacular spoken by Jesus of Nazareth (Yeshua). Hebrew, by contrast, remained the language of scripture, priesthood, and sacred tradition.

This distinction is crucial for Masonic symbolism. The AASR’s allegories are deeply rooted in the Solomonic narrative and the construction of the First Temple a distinctly Hebrew milieu. While Aramaic influences exist, particularly in later esoteric traditions, the core vocabulary of the Rite Jachin, Boaz, Adonai is fundamentally Hebrew. Understanding this separation allows the Freemason to better contextualize the ritual’s historical and symbolic setting, ensuring that the tools of the Builder’s Craft are applied with correct historical reference.


The Massoretic Key: Unlocking Correct Pronunciation

The primary challenge to the accurate transmission of Hebrew within Masonry lies in the nature of the language itself. Ancient Hebrew was written with a consonantal alphabet (an abjad), wherein vowel sounds were transmitted solely through oral tradition. The fear that this living tradition would be lost during the diasporic upheavals led Jewish scribes, known as the Massoretes (circa fifth to tenth centuries CE), to develop a system of diacritical marks points and accents to codify pronunciation. This Massorah ensured the precise vocalization of the sacred texts for future generations.

The absence of these Massoretic signs in Masonic rituals has been a perennial source of variation and error. A quintessential example is the pillar Boaz ( בֹּעַז ). In many lodges, it is rendered as Booz, a mispronunciation that would be immediately clarified by the Massoretic vowel points ( cholam followed by a patah ). Similarly, the sacred Tetragrammaton ( יהוה ) the ineffable name of the Divine has spawned a multitude of transliterations (Yahweh, Jehovah, Jahve) due to interpretive variations in vowel placement, a practice further complicated by theological prohibitions against its utterance. The Masonic student must therefore become attentive to the precise form and sound of the words that are the very cornerstone of the ritual. This is not an exercise in pedantry but a faithful effort to recover the authentic voice of the Rite.


The Pillars of the Rite: Hebrew’s Foundational Influence

The influence of Hebrew on the AASR is both overt and subtle. Its most visible manifestations are the pillars Jachin ( יָכִין "He Establishes") and Boaz ( בֹּעַז "In Him is Strength"), which stand as silent sentinels in every lodge, their Hebrew names a constant reminder of the Temple's archetype. The language permeates the Degrees, providing Sacred Words, Passwords, and phrases of recognition that are overwhelmingly Hebrew in origin.

This was a deliberate choice. As Albert Pike, the great jurist and revitalizer of the Southern Jurisdiction of the AASR, articulated in Morals and Dogma, the Rite’s early rituals were "heavily laden with biblical stories" and, "encouraged by the mystical speculations of the Kabbalah," are "heavily laden with Jewish symbolism and folk narratives" (PIKE, 2011, p. 1003). Pike, a polyglot fluent in Hebrew, alongside erudite brethren like Albert Mackey, deeply understood the symbolic potency of the language. They recognised that these words were not mere labels but vessels of meaning, connecting the speculative Mason to the operative traditions of Solomon’s Temple and the esoteric currents of Kabbalistic thought.

While speculation exists about the direct influence of Jewish Freemasons like Stephen Morin in seeding the Rite with Hebrew elements, the evidence remains circumstantial (CORTEZ, 2009; MACKEY, 1879). A more compelling explanation lies in the Rite’s intrinsic draw upon the Old Testament as its primary mythological and symbolic source. The Hebrew language is the native tongue of that source; to engage with the narrative is to engage, inevitably, with its original linguistic medium.


Towards an Authentic Practice: A Call for Scholarly Vigilance

To preserve the integrity of the ritual, we shall follow the example of José Castellani and refrain from associating specific words with their respective Degrees. However, we can highlight illustrative challenges. The word Shibolet ( שִׁבֹּלֶת "an ear of grain"), for instance, is often misaccented as Shibolé, obscuring its meaning. Furthermore, the letter Shin ( ש ) can, with a Massoretic point (dagesh), be pronounced as Sin, leading to alternative readings like Sibolet a variation often explained by a poignant allegory within the Rite itself.

These nuances are critical. They are the subtle calibrations that ensure the symbolic machinery of the AASR functions as intended. The casual or incorrect use of Hebrew risks reducing powerful symbols to empty formulae. The solution lies in a committed return to study a concerted effort by lodges and individual brethren to seek out authoritative sources, to consult with scholars, and to prioritise linguistic accuracy with the same fervour applied to the precise execution of the ritual's physical movements.


Conclusion: Recovering the Lost Word

The indelible presence of Hebrew in the Ancient and Accepted Scottish Rite is a testament to the Rite’s deep roots in Western esoteric and religious tradition. It serves as a bridge to antiquity, a key to symbolism, and a source of profound philosophical insight. The journey of Hebrew from a living tongue to a sacred relic and back to a living language echoes the Masonic quest for light, symbolising the recovery of that which was lost.

The challenges of transliteration and pronunciation are not insurmountable. They call upon the Freemason to exercise the cardinal virtues of Fortitude in study, Temperance in judgment, and Prudence in application. By embracing a scholarly approach to the Hebrew language, the Craft can ensure that the vibrant, resonant voice of the Sacred Tongue continues to speak clearly through the rituals of the AASR, guiding each brother not merely to hear the words, but to understand their true meaning, and in so doing, to continue the eternal work of building his own spiritual temple.


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Maçonaria Brasileira: Uma Reflexão Necessária

A Maçonaria brasileira, como toda tradição viva, caminha sobre um fio delicado: preservar a herança simbólica e filosófica que a sustenta enquanto adapta, com sabedoria, ao tempo presente. Nesse esforço por manter sua relevância, surgem questões sensíveis que merecem atenção, e, entre elas, talvez a mais urgente diga respeito à elegância. Não se trata aqui da estética do vestuário ou da ostentação de formalidades. Refiro-me à elegância como atitude ética, postura discreta, rigor no trato com os outros e sobriedade no discurso. Uma elegância que nasce da nobreza de espírito e se expressa, sobretudo, na forma como nos apresentamos, nos relacionamos e conduzimos nossas ações.

Em sua essência, a Maçonaria é – ou deveria ser – um espaço de construção moral e intelectual. Um discreto laboratório de virtudes, onde o cultivo do caráter se sobrepõe à busca por reconhecimento exterior. Contudo, observa-se, por vezes, um descompasso entre a intenção e a forma. Por vezes, numa ânsia de afirmação, multiplicam-se títulos, nomeações e estruturas que evocam grandeza, mas que nem sempre encontram equivalência em ações ou produções que lhes dêem sustentação. Como nos lembra o filósofo Emmanuel Levinas, “a ética precede a ontologia” e, por extensão, precede também qualquer prestígio. Não é o nome que dignifica o homem, mas sua conduta. E aqui, não falo da estrutura simbólica ou do ritualismo interno da Ordem, mas da maneira como nos apresentamos extramuros, perante a sociedade.

Multiplicam-se, com frequência, espaços, iniciativas e eventos que adotam nomenclaturas evocativas de prestígio, títulos que remetem, no imaginário coletivo, a instituições consagradas pelo saber ou pelo rigor intelectual. No entanto, quando esses nomes não são acompanhados de exigência, profundidade ou compromisso com a excelência, o resultado é uma percepção pública de artificialidade. E, inevitavelmente, aquilo que deveria inspirar respeito pode acabar reduzido ao deboche. Não é necessário nomear diretamente essas instâncias; o leitor atento reconhecerá o fenômeno. O que se propõe aqui é apenas um convite à reflexão: será que o conteúdo corresponde à forma? Ou será que, ao adotar certas denominações, sem o devido lastro, corremos o risco de banalizar o próprio ideal que pretendemos valorizar?

Essa discussão não se restringe ao campo simbólico das palavras. Estende-se também à conduta, à postura e ao espírito com que se realizam os diversos encontros maçônicos. A forma como uma confraternização é conduzida, por exemplo, revela muito sobre os valores cultivados em uma Loja. Será que, ao redor do mundo, essas celebrações mantêm o mesmo padrão, o mesmo espírito? E nós, brasileiros, como nos apresentamos nessas ocasiões? Como falamos, como brindamos, como recebemos um Irmão? Até que ponto nossos modos revelam a essência iniciática que deveria nos diferenciar do mundo profano?

Não se trata, aqui, de negar ou reprimir a alegria, nem tampouco de rejeitar as marcas culturais que nos tornam únicos. Somos brasileiros, e nossa espontaneidade é parte da nossa riqueza. No entanto, cabe perguntar: a cultura maçônica que expressamos reflete, de fato, o conteúdo maçônico universal que herdamos? Ou temos importado, muitas vezes sem perceber, práticas e comportamentos típicos do mundo profano, na linguagem, na informalidade, no excesso de teatralidade? 

Tomemos novamente o cuidado com os títulos, os cargos e as estruturas. Quando criamos algo e o nomeamos com referências que remetem à erudição ou à excelência, mas não garantimos o mesmo padrão no conteúdo, corremos o risco de transformar uma bela intenção em caricatura. Todos conhecemos exemplos, aqui e acolá, de organizações que se anunciam com nomes solenes, mas cujos frutos são escassos ou desconectados da realidade. E, mais uma vez, recordemos: “a ética precede o saber”. A verdadeira elevação está na responsabilidade diante da palavra proclamada. O uso solene de um título sem correspondente em prática ou substância pode esvaziar, em vez de dignificar.

Esse esvaziamento também se manifesta quando símbolos tornam-se fetiches, e o espaço que deveria ser de elevação torna-se palco para vaidades. Quando reuniões se assemelham mais a confrarias sociais do que a oficinas de aperfeiçoamento moral, o espírito iniciático se fragiliza. O filósofo Martin Buber, em sua filosofia do diálogo, propõe que a relação entre o “Eu” e o “Tu” seja verdadeira, aberta, autêntica. Por vezes, o “Eu” inflado, autocentrado, seduzido pelo aplauso interno, e desconectado da alteridade, pode vir a ser o comum e rotineiro nesses espaços. A linguagem, os eventos, os discursos e as festas podem se tornar expressões de exibicionismo ou de informalidade incompatível com os valores que proclamamos.

Por outro lado, também merece atenção o comportamento daqueles que, por zelo à tradição, opõem-se a qualquer movimento de renovação. Apegam-se a formas que, muitas vezes, já não refletem a essência do que se quer preservar. Franz Rosenzweig, escreveu: “O eterno não é o imóvel, mas o que renasce sempre.” A resistência absoluta à mudança, quando desprovida de reflexão, também pode deformar a tradição. Afinal, o que é vivo se transforma e fazê-lo com elegância é um ato de respeito à própria permanência.

Portanto, não se trata de combate, mas de convite. Um chamado à introspecção: será que temos sido, de fato, um exemplo para a sociedade? Nossa linguagem, nossos modos, nossas estruturas são reconhecidos como expressão de ética, sobriedade e profundidade? Ou será que estamos, aos poucos, nos tornando irrelevantes ou caricaturais justamente por abandonarmos a elegância silenciosa que sempre distinguiu os iniciados?

A verdadeira Maçonaria se mede por sua capacidade de transformar, com discrição e substância, o mundo à sua volta. A marca do verdadeiro iniciado está na sobriedade com que vive, não nos títulos que ostenta. Ser justo, ser profundo, ser coerente, eis a elegância genuína. E, talvez, este seja o momento de reavaliar a cultura dos excessos simbólicos, da intelectualidade de vitrine, das pompas sem propósito. Não somos maiores por dizê-lo, mas por sê-lo. A grandeza está na forma como acolhemos o outro, não na maneira como nos apresentamos a ele com superioridade.

Este texto não é uma acusação, tampouco um lamento. É, antes, um espelho, como no processo iniciático e como a necessidade de estarmos sempre a mergulhar em um VITRIOL oferecido com serenidade e respeito. Devemos purificar o pensamento para que a verdade possa resplandecer. Que possamos, então, refletir sobre as palavras que usamos, as estruturas que criamos e a imagem que projetamos.

Que a Maçonaria brasileira, rica em história e potencial, veja em toda crise e escuridão uma oportunidade para revelar Luz. Oportunidade de exercer sua referência moral, intelectual e espiritual. Que sejamos, como Irmãos, construtores de pontes, e não de palcos. E que nossa maior distinção seja, sempre, a humildade com que servimos ao ideal de tornar a humanidade mais feliz, com elegância, com substância e com verdade.


Publicado pela Revista "O Prumo", Edição 280 - Maio / Junho de 2025
Link: https://gosc.org.br/3d-flip-book-category/revista-o-prumo/
Data: 30 de setembro de 2025

domingo, 27 de julho de 2025

Yud: O Ponto Que Sustenta o Universo

Há símbolos que não se medem pelo tamanho, mas pela profundidade. E há letras que não precisam de corpo para carregar o espírito. A menor de todas as letras do alfabeto hebraico: Yud (י), parece à primeira vista apenas um traço breve, um quase nada. Um ponto suspenso, tímido, quase ausente. Mas dentro dela repousa um universo inteiro. Na tradição da Cabala, esta letra é considerada a matriz invisível de toda a criação. O ponto primeiro, o princípio que contém, em embrião, tudo o que virá a ser. Creatio ex nihilo.

Para os cabalistas, a Yud é a semente, o vestígio mais puro da intenção divina de criar. Antes de qualquer forma, antes mesmo da palavra, existe um ponto. E esse ponto é o gesto silencioso do divino que se retrai para dar lugar ao outro, ao mundo, ao tempo, ao ser humano. A Cabala chama esse movimento de tzimtzum: uma retracção voluntária, um acto de generosidade cósmica. O infinito recua, e da sua ausência aparente brota a possibilidade de todas as presenças. Nesse espaço, a Yud brilha. Ela é a faísca da luz original, o foco do que virá a se expandir, o ponto imóvel que sustenta o movimento de tudo o mais.

Mas a beleza simbólica da Yud não se limita ao pensamento místico judaico. Ela encontra um eco ressonante, e surpreendentemente preciso, na tradição maçónica, onde também se cultiva o valor da construção interior, da iniciação simbólica e da confiança numa ordem superior. A Maçonaria, embora não seja uma doutrina religiosa nem esteja filiada a nenhum misticismo em particular, se estrutura sobre símbolos vivos, que não encerram verdades, mas despertam sentidos.

E é precisamente aí que a Yud encontra o seu lugar: como símbolo do princípio criador, do ponto de partida do espírito humano na sua jornada de ascensão. É o ponto no círculo. O ponto da origem. A centelha da consciência. Como o aprendiz que pisa no Templo pela primeira vez, a Yud é pequena, mas contém o todo. É o traço mínimo do qual surgirá a coluna, o templo, a luz.

Dentro da simbologia maçónica, há um emblema central: o ponto dentro do círculo. Este símbolo é vasto e polissémico, mas uma das suas leituras possíveis, e particularmente poética, é esta: o ponto representa o ser humano, e na sua essência, cercado pelo círculo da ordem cósmica, da moral, do tempo e da lei. Este ponto é o centro de equilíbrio, é onde começa a construção. E é também onde se encontra a consciência da origem, o princípio da rectidão, o chamado à elevação. O Yud, como ponto sagrado no alfabeto da criação, cumpre esse papel: ele não é apenas o início da palavra, mas o início da sabedoria.

Ela também é a primeira letra do Tetragrama Divino – YHVH (יהוה) – o Nome mais sagrado na tradição hebraica. É com a Yud que D’us Se nomeia ao mundo. Isto sugere-nos que o que é mais sagrado começa com o mais pequeno, com o que parece insignificante aos olhos não iniciados. A letra que menos ocupa espaço é justamente a que porta a potência total do Infinito.

É um convite à reflexão: o que é pequeno pode conter a totalidade; o que é invisível pode sustentar o visível. E isso não é apenas uma ideia mística; é também uma lição prática e ética, como a que propõe a Maçonaria nos seus rituais. A construção do templo interior começa com a humildade. O iniciado, ao adentrar o espaço sagrado da Loja, não se afirma: ele se oferece. Ele é, como a Yud, um ponto, mas um ponto disposto a crescer, a traçar linhas, a formar estruturas.

O valor numérico da Yud é dez pela guemátria, número que marca a totalidade no pensamento hebraico. Dez são os mandamentos, dez são as sefirot da Árvore da Vida cabalística, dez os dedos com os quais se trabalha e se toca o mundo, dez são as pragas, dez são as vogais do alfabeto, o sopro divino e interno que dá vida às consoantes e letras do alfabeto hebraico. Na geometria sagrada da tradição maçónica, o dez também representa a unidade completada, o retorno à origem depois do ciclo de nove etapas. É a chegada ao ponto em que se pode começar de novo, mas em outro nível, mais alto, mais consciente, mais pleno.

Yud é, portanto, símbolo da origem e do destino. Ela é o que precede a jornada e o que permanece ao fim dela. Não se esgota na forma: é puro princípio. E onde há princípio, há propósito. Onde há origem, há sentido.

E talvez seja justamente isso o que une, silenciosamente, a Cabala e a Maçonaria: a convicção de que o mundo não é caos, mas construção. Que há, sob a aparência fragmentada da existência, uma ordem possível, uma harmonia latente, um projecto que pede mãos, olhos e coração para ser realizado. Yud é esse projecto em estado puro: o ponto de onde tudo emerge, a semente de toda edificação. É o ponto onde o humano e o divino tocam-se. O ponto que lembra, a cada traço, que a criação, seja ela cósmica ou interior, começa no silêncio, na intenção, na humildade.

Num tempo em que tudo grita, em que tudo quer ser grande, visível, imponente, o Yud ensina a beleza do recuo, o poder do mínimo, a força do essencial. Ensina que, para construir, é preciso primeiro conter-se. Que, para erguer colunas, é preciso saber ser ponto. E que a verdadeira elevação começa dentro.

Assim, a próxima vez que virmos um ponto, que contemplarmos o início de um traço, de uma palavra, de uma ideia, que lembremos do Yud. Porque no menor dos símbolos pode habitar o maior dos mistérios.

E neste mistério vive a promessa da luz.



Publicado no Portal Freemason: https://www.freemason.pt/yud-o-ponto-que-sustenta-o-universo/
Em 27/07/2025

A Indelével Presença do Hebraico no Rito Escocês Antigo e Aceito

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Albert Pike: O seu legado além da controvérsia e dos média



A queda da estátua de Albert Pike em Washington, D.C., em Junho de 2020, durante manifestações públicas, reacende um debate sobre como a sociedade deve lidar com figuras históricas cujos legados são, frequentemente, complexos e controversos. O monumento a Pike foi derrubado por manifestantes, que, equivocadamente, o associaram a um “monumento confederado”. O acto de destruição e subsequente queima da estátua foi amplamente noticiado, trazendo à tona a discussão sobre o tratamento de símbolos históricos e figuras como Pike, cujas vidas e legados não podem ser simplificados a um único rótulo. Para além deste acto de vandalismo, é interessante notar que há maçons que consideram a obra de Pike obsoleta ou atrasada. Apesar de ser uma parcela muito pequena e possivelmente motivada pela falta de análise ou mesmo conhecimento do seu trabalho e legado, é preocupante porque, de certa forma, acaba por influenciar ou propagar desconhecimento e escuridão onde mais precisamos de luz.

Como observa Christopher Hodapp, autor e especialista em Maçonaria, a destruição da estátua de Pike revela uma tendência perigosa de reduzir as figuras históricas a estereótipos convenientes, sem considerar a totalidade das suas contribuições e falhas. Na sua análise sobre Pike, Hodapp destaca que a figura de Pike foi, ao longo do tempo, cercada por mal-entendidos e distorções, muitas das quais são perpetuadas por narrativas simplistas. Como de uma parcela pequena de maçons que também pode ser inserida nestas distorções. Para Hodapp, Pike foi um homem que, embora tenha cometido erros na sua vida, também demonstrou notável crescimento pessoal e intelectual, buscando, ao longo da sua jornada, promover valores como o autoconhecimento, a moralidade e a fraternidade. Hodapp, ao lado de Arturo De Hoyos, destaca que Pike foi um pensador multifacetado, cujas contribuições para a Maçonaria e a sociedade americana não podem ser reduzidas a sua relação com a Guerra Civil Americana ou com acusações infundadas, como a sua suposta associação ao Ku Klux Klan.

Albert Pike foi um homem de múltiplas facetas. Nascido em Boston, Pike se destacou como advogado, escritor, poeta, historiador e líder militar. A sua actuação em favor dos direitos dos nativos americanos, por exemplo, reflecte uma das suas preocupações sociais mais profundas. Embora tenha se posicionado a favor dos direitos dos estados durante a Guerra Civil, Pike nunca justificou a escravidão. De facto, embora tenha se oposto à renovação do tráfico de escravos, ele permaneceu, em algumas das suas declarações, hesitante em condenar a escravidão de forma absoluta, o que lhe rendeu críticas posteriores.

Hodapp também destaca que Pike foi uma figura polarizadora, alguém que, ao longo da vida, foi capaz de abandonar preconceitos pessoais e se envolver em causas progressistas, como o apoio à Maçonaria de Prince Hall e ao movimento maçónico negro. Pike não apenas colaborou com líderes da Prince Hall, como Thornton A. Jackson, mas também compartilhou com eles os rituais maçónicos de grau superior, reconhecendo a importância da fraternidade sem as barreiras raciais que dividiam a sociedade americana.

Porém, o legado de Pike foi manchado por falsas alegações. Como aponta De Hoyos, Pike foi erroneamente acusado de ser membro do Ku Klux Klan, uma acusação que nunca foi corroborada por documentos ou investigações sérias. O Congresso dos Estados Unidos, numa investigação em 1871, refutou essas alegações, constatando que não havia qualquer vínculo entre Pike e o grupo. Hodapp também menciona essa distorção histórica e a maneira como ela prejudicou a imagem de Pike ao longo do tempo, afectando a compreensão pública da sua vida e da sua obra.

Outro ponto controverso foi a acusação de que Pike seria um “luciferiano”, uma falsa narrativa alimentada pelo charlatão francês Leo Taxil, que mais tarde admitiu que a sua acusação era uma farsa. Taxil afirmou que Pike seria o “Pontífice Soberano da Maçonaria Universal” e que teria ensinado a adoração a Lúcifer, algo totalmente desmentido por Pike nos seus próprios escritos, nos quais ele reafirma a sua crença em Deus e na moral cristã. Como destaca Hodapp, Pike era, na verdade, um cristão devoto, que via em Jesus Cristo um exemplo moral e ético para os maçons.

O ponto central do legado de Pike, como ressalta Hodapp, é a sua busca incessante pela verdade e pelo aprimoramento pessoal. Nas suas obras, como “Morals and Dogma”, Pike exortava os maçons a se dedicarem à busca da verdade, ao auto-aperfeiçoamento e ao serviço à humanidade. O seu famoso ditado, “O que fizemos para nós mesmos morre connosco; o que fizemos pelos outros e pelo mundo permanece e é imortal”, continua a ser uma das frases mais emblemáticas do seu pensamento.

Portanto, é essencial que, ao analisarmos figuras históricas como Albert Pike, adoptemos uma abordagem que vá além das simplificações impostas pelos média e pelos protestos públicos. Como destaca Hodapp, e como Arturo De Hoyos tem insistido nas suas pesquisas, o legado de Pike deve ser entendido no seu contexto completo, reconhecendo tanto as suas falhas quanto as suas virtudes, e não reduzido a um estereótipo conveniente ou a uma narrativa polarizada. Pike foi um homem que, apesar das suas imperfeições, buscou criar uma fraternidade baseada na superação de barreiras sociais e raciais e na promoção do bem comum.

Em última análise, tanto os vândalos que destroem a estátua de Albert Pike quanto os maçons que buscam manchar a sua imagem compartilham a mesma ignorância: a de reduzir uma figura histórica multifacetada a um simples estereótipo, desconsiderando a complexidade do seu legado. A destruição física da estátua e a tentativa de deslegitimar o seu trabalho revelam um empobrecimento da reflexão e uma falha em compreender as nuances que caracterizam as trajectórias humanas. Como observa Christopher Hodapp, as figuras históricas não devem ser julgadas de forma superficial ou simplista, mas sim analisadas na sua totalidade, com todos os seus méritos e falhas. A tentativa de apagar ou distorcer a história, seja por meio da violência simbólica contra monumentos ou pela disseminação de distorções sobre o trabalho de Pike, empobrece a compreensão pública e a reflexão crítica sobre o legado dessas figuras. Albert Pike foi uma personalidade de relevância indiscutível, especialmente para a Maçonaria e, particularmente, para o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA), onde as suas contribuições são fundamentais. A sua obra “Morals and Dogma” continua a ser uma referência central para maçons ao redor do mundo, oferecendo uma profunda reflexão sobre a moralidade, o autoconhecimento e o serviço à humanidade. A sua influência vai além das controvérsias e falhas da sua vida, reflectindo um trabalho que buscava aprofundar o entendimento filosófico e esotérico dentro da Maçonaria. O verdadeiro valor de uma figura histórica como Pike reside na nossa capacidade de aprender com as suas virtudes e limitações, sem cair na tentação de simplificar ou distorcer a sua história. O legado de Pike, longe de ser uma simples narrativa de acertos e erros, representa uma parte essencial da tradição maçónica, especialmente no contexto do REAA, que deve ser reconhecida e compreendida na sua totalidade, como uma fonte rica de sabedoria e reflexão para as gerações actuais e futuras.

Originalmente publicado no Portal Freemason
https://www.freemason.pt/albert-pike-legado-controversia-media/