sábado, 15 de novembro de 2025

Entre a Forma e o Conteúdo: Uma Análise Junguiana da Crise Educacional no Rito Escocês Antigo e Aceito no contexto brasileiro

*Artigo apresentado por ocasião do 1º Congresso Brasileiro de Pesquisa Maçônica, realizado no dia 15 de novembro de 2025, em Brasília, pela GLMDF. 



Entre a Forma e o Conteúdo: Uma Análise Junguiana da Crise Educacional no Rito Escocês Antigo e Aceito no contexto brasileiro

1. Introdução

  O Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.), um dos sistemas maçônicos mais praticados globalmente, enfrenta uma crise de eficácia que, em sua essência, pode ser entendida como uma crise educacional (OLIVEIRA; LERAY; FERREIRA, 2021). Essa crise não se limita à proliferação de iniciativas desconexas ou à multiplicidade de instituições dispersas, que frequentemente fragmentam esforços ou acabam por se concentrar em atividades e eventos sociais (LORA, 2025b). O problema central investigado por este artigo é a transformação do R.E.A.A. de um sistema educativo iniciático, fundamentado no simbolismo  como ferramenta de transformação interior, em uma instituição de caráter predominantemente social, administrativo e filantrópico, onde o ritual é esvaziado de seu significado mais profundo e reduzido a protocolo cerimonioso (TOWEY, 2022; HASSELMANN, 2014).

  Diante desse contexto, a pergunta de partida que orienta esta investigação é: Como o abandono de uma pedagogia centrada no simbolismo e no processo de individuação contribuiu para a crise educacional no R.E.A.A., e de que forma a psicologia analítica de Carl Gustav Jung oferece um quadro teórico para sua revitalização?

  O objetivo geral deste trabalho é analisar a crise educacional no R.E.A.A. por meio das lentes da psicologia junguiana e da tradição filosófica maçônica, argumentando que a superação desta crise depende da revalorização do simbolismo como eixo de uma pedagogia da individuação. Para atingir este objetivo, traçam-se os seguintes objetivos específicos: primeiramente, contextualizar historicamente o desvio do foco iniciático para o social na Maçonaria, examinando as transformações socioculturais que, segundo autores como Dumenil (1984) e Towey (2022), reconfiguraram a função das Lojas que utilizam o rito ao longo do século XX. Em segundo lugar, apresentar os fundamentos de uma pedagogia simbólica maçônica, resgatando a intenção filosófica original do R.E.A.A. a partir da Escola Filosófica  consolidada por autores como Pike (1871), Wilmshurst (1924) e Hammer (2010). Num terceiro momento, o trabalho busca articular os conceitos junguianos de símbolo, arquétipo e processo de individuação com a jornada iniciática maçônica, demonstrando os paralelos teóricos entre a psicologia analítica e o sistema de graus do Rito. 

  Por fim, e com base nessa fundamentação, almeja-se propor diretrizes teóricas como recomendações para o processo pedagógico do R.E.A.A. que reinstitua o simbolismo como ferramenta central de autotransformação e eixo de uma educação maçônica renovada. A hipótese que se sustenta é a de que a crise educacional do R.E.A.A. é fundamentalmente uma crise de significado, resultante da negligência da dimensão simbólica e de seu poder transformador. Sua superação está condicionada à adoção de um modelo pedagógico que compreenda e utilize o simbolismo ritualístico como via privilegiada para facilitar o processo de individuação do maçom, tal como conceituado por Carl Gustav Jung e defendido pelos fundadores da tradição filosófica do REAA . 

  Quanto à metodologia, este artigo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza teórico-bibliográfica e analítica. Utiliza-se o método de análise crítica de conteúdo de fontes primárias – notadamente as obras de Carl Gustav Jung, Albert Pike, W.L. Wilmshurst e Andrew Hammer – e fontes secundárias – como os trabalhos históricos de Lynn Dumenil e a compilação contemporânea de Christopher Towey, dentre outros. A análise busca identificar convergências teóricas entre a psicologia analítica e a tradição maçônica, construindo um argumento coerente para responder ao problema de pesquisa.


2. A Trajetória de uma Crise Anunciada

     A literatura estrangeira identifica essa crise como decorrente da priorização do crescimento quantitativo em detrimento da qualidade filosófica e educativa, uma tendência que se intensificou ao longo do século XX (TOWEY, 2022). No contexto brasileiro, observa-se fenômeno análogo, especialmente em anos recentes, quando diversas pesquisas e artigos passaram a dedicar-se ao problema da chamada evasão maçônica (MORAIS, 2017; 2019; 2020). Como resposta a esse diagnóstico, Potências e Lojas maçônicas passaram a direcionar esforços principalmente para a abertura de novas Oficinas, o estímulo a iniciações e a criação de iniciativas voltadas à atração de neófitos, o que, por consequência, se não for administrado de maneira atenta, acaba por reforçar a mesma lógica de valorização da quantidade em prejuízo da qualidade formativa. 

  Lynn Dumenil (1984), em sua análise da Maçonaria americana, identificou, naquele contexto, que as Lojas passaram por uma significativa mudança de função após a Primeira Guerra Mundial, transformando-se de espaços de reflexão filosófica e ritualística em clubes sociais orientados para atividades cívicas e de entretenimento. Conforme assinala a autora, Lodges that were once sanctuaries would adapt and change into more open and commercially orientated clubs (DUMENIL, 1984). No contexto brasileiro, observa-se fenômeno análogo. Se no século XIX e início do XX a Maçonaria destacou-se pela atuação de intelectuais e influência em projetos de nação (COLLUSSI, 2003), nas décadas recentes houve uma transição para um perfil mais social, onde atividades comunitárias e assistenciais sobrepuseram-se à reflexão ritualística e ao estudo simbólico (LORA, 2025b). No Brasil, contudo, esse movimento não se deve a um americanismo ou a pressões geopolíticas, mas a fatores endógenos. Conforme apresentado por pesquisas realizadas pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB) e pela Grande Loja Maçônica do Distrito Federal (GLMDF), a dificuldade de reter membros está ancorada em problemas como conflitos interpessoais e disputas por poder – citados como a principal causa, com 26,3% na pesquisa da GLMDF (MORAIS, 2020) e entre 41% e 53% na pesquisa da CMI (2018). Além disso, sessões consideradas enfadonhas e sem propósito, bem como a frustração em relação às expectativas não atendidas dos membros, também contribuem para a evasão. Esses fatores são agravados pela falta de uma formação maçônica consistente - uma deficiência historicamente reconhecida na instituição e evidenciada pelo dado de que menos de 5% dos maçons brasileiros conhecem os conceitos fundamentais  da Ordem (CMI, 2018) - e por lacunas na administração e liderança das Lojas, que falham em reter especialmente os membros mais jovens e com menor tempo de iniciação. A priorização da abertura de novas Lojas e do recrutamento massivo – em resposta à evasão – pode aprofundar esse viés, relegando a formação filosófica a um plano secundário. Como resultado, é possível pensar em um enfraquecimento do caráter iniciático e reflexivo que outrora definiu a Maçonaria, justificando, em parte, a percepção popular de que a Ordem vive mais de suas glórias passadas do que de uma atuação relevante e transformadora no presente.

  Visionários do R.E.A.A. já alertavam para este risco, principalmente da Escola Filosófica (LEE, 2022), como Albert Pike, que, em Morals and Dogma (1871), defendia que a Maçonaria deveria preservar seu núcleo filosófico, distanciando-se de tendências meramente filantrópicas. Muitos anos antes da referida pesquisa sobre evasão maçônica no Brasil, Pike já criticava a indiferença em relação ao estudo do simbolismo, notando que poucos maçons ainda regard the symbolism of Freemasonry as of any real value, or care to study it  (DE HOYOS, 2023). Em diversas passagens da referida obra, Pike admoesta o leitor-maçom a ir além da aparência, da moral e do dogma dos graus, convidando-o a um mergulho interpretativo que exige tempo, dedicação e erudição a partir da análise do símbolo, ou seja, o entendimento de sua própria obra, assim como do REAA exige ultrapassar a noção de moral e de dogma. Seu discurso é, em grande medida, uma exortação contra a passividade intelectual e uma defesa vigorosa da investigação pessoal, da autoanálise, da reflexão, o VITRIOL . Para Pike (1871), a falha em empreender essa jornada de aprofundamento representa não apenas uma oportunidade perdida, mas uma distorção do propósito essencial da Maçonaria como via de conhecimento e autotransformação, assim como assinala Hasselmann (2014).

  Na mesma linha, W.L. Wilmshurst, em The Masonic Initiation (1924), também já alertava para a superficialidade com que os rituais de iniciação eram compreendidos e vividos pelos maçons de seu tempo. Para ele, uma das maiores urgências da Ordem consistia justamente em reeducar seus membros quanto ao verdadeiro propósito dos símbolos e cerimônias, como afirma: no more is needed and useful work is to be done in the Masonic Order today than the education of its members in the true purpose of rites of initiation (WILMSHURST, 1924, p. 10). Wilmshurst observava, na década de 1920, uma clivagem entre aqueles que buscavam efetivamente a Luz — entendida como elevação espiritual e intelectual — e os que se satisfaziam com uma filiação nominal, condecorativa ou honorífica, desprovida de busca hermeneutica ou transformação interior.

  Essa percepção mantém-se atual quando se observa a proliferação de iniciativas sob o selo da Maçonaria que, embora revestidas de terminologia filosófica ou científica - como é o caso de instituições que recebem o beneplácito de Potências Maçônicas, - mas frequentemente distanciam-se do núcleo simbólico-iniciático da Ordem. Muitas dessas ações, sejam elas filantrópicas, literárias ou sociais, ainda que meritórias em sua intenção, ao tempo em que ampliam o escopo de atuação da Ordem, correm o risco de reduzir a Maçonaria a mais uma associação civil comunitária ou clube de assistência, esvaziando seu caráter distintivo como via de autoconhecimento e desenvolvimento ético-simbólico. Ao privilegiar atividades externas em detrimento do exame aprofundado dos seus próprios fundamentos, a instituição acaba por assimilar-se a outras formas de sociabilidade existentes, abdicando de sua potencialidade educativa como espaço de formação humana profunda e perpetuando, assim, a cisão entre aparência ritual e substância doutrinária. Nesse sentido, há espaço para muita reflexão e pesquisa que possa identificar ou auferir a compreensão da Ordem pelos próprios maçons. 

  No período posterior à Segunda Guerra Mundial, conforme documentado nas Proceedings da Grande Loja da Califórnia (1955), observou-se uma nítida transformação na dinâmica das Lojas maçônicas, que passaram a encurtar a duração de suas reuniões e a limitar as discussões de cunho ritualístico e simbólico, privilegiando, em seu lugar, atividades de sociabilidade e confraternização. Como assinala Towey (2022), "Lodges make their meetings shorter and keeping discussion within Lodge to a minimum so that the lodge members can join in fellowship sessions after the Lodge is closed". Essa tendência, que pode ser notada no comportamento de muitos maçons no Brasil, reflete uma opção pela brevidade e informalidade, em detrimento da profundidade simbólica, ainda que existam iniciativas para reverter esse quadro, principalmente após o período de pandemia do Covid 19, onde os encontros virtuais deram espaço a novas tentativas de se voltar ao estudo e à formação maçônica .

  Independentemente da validade dessa orientação, que pode ser objeto de debate entre estudiosos, o cerne da questão reside na consequente marginalização do conteúdo simbólico e filosófico em favor de agendas administrativas, logísticas, meramente sociais ou ainda disfarçada de propósito intelectual pelas iniciativas literárias existentes. Se o pouco tempo de reunião é majoritariamente consumido por questões procedimentais e a abertura para a reflexão coletiva sobre símbolos, alegorias e ensinamentos é restrita, a formação maçônica tende a ficar relegada à iniciativa individual ou a grupos de estudo externos, que, embora válidos, não substituem o caráter comunitário e ritualístico do aprendizado em Loja. Assim, coloca-se em xeque a própria função formadora do espaço templário, que deveria servir como ambiente privilegiado para a interpretação compartilhada e o aprofundamento iniciático (MACKEY, 1882). Novamente, essa reflexão não desconsidera o valor do aspecto comunitário e filantrópico da Maçonaria, mas ressalta a necessidade de reequilibrar as prioridades, a fim de que a instituição não diminua sua identidade primordial como escola de simbolismo e filosofia, ou seja, seu aspecto pedagógico.

  Essa dinâmica operacional pode transformar progressivamente as Lojas em fábricas de graus, nas quais a iniciação se reduz a um procedimento mecânico, esvaziado de seu potencial educativo e, sobretudo, de sua capacidade de despertar no indivíduo o processo de individuação , entendido como a assimilação consciente de símbolos e arquétipos visando ao aprimoramento ético e filosófico (JUNG, 2021). Se, ao final de uma iniciação , não se instaura no recipiendário um movimento de autorreflexão prolongada, capaz de ecoar por dias ou mesmo semanas, todo o aparato simbólico e performático do ritual falha em cumprir sua função transformadora. Nesse caso, a experiência limita-se a mero protocolo, destituído do caráter vivencial que define uma ordem iniciática genuína, tal qual foi concebida. 

  É plausível supor que essa desconexão entre expectativa e realidade ritualística contribua significativamente para a evasão maçônica, especialmente entre aqueles que ingressam em busca de profundidade filosófica e crescimento interior. Não por acaso, o declínio numérico vivido pela Maçonaria americana a partir da década de 1960 refletiu, sobretudo, uma crise qualitativa substancial. Em 1966, a Grande Loja da Califórnia alertava: "the biggest problem concerning Freemasonry is the preservation of Freemasonry’s fundamental philosophy and Landmarks" (TOWEY, 2022). Percebe-se, assim, que o problema elencado não era apenas na preservação dos Landmarks, mas, necessariamente, implicava na transmissão efetiva do conteúdo simbólico-filosófico que confere sentido à jornada maçônica, sob pena de a instituição tornar-se progressivamente irrelevante para aqueles que procuram mais do que sociabilidade ou vivência comunitária.

  É neste contexto que se insere a demanda contemporânea por uma experiência maçônica mais significativa, educativa, articulada por autores como Andrew Hammer. Em Observing the Craft (2010), Hammer defende "a restauração da Maçonaria à intenção histórica e filosófica de seus fundadores" (HAMMER, 2010), argumentando que a Ordem deve privilegiar a excelência ritualística, o estudo profundo e a busca interior sobre o mero recrutamento em massa, uma clara defesa dos valores da corrente francesa, principalmente voltada para o REAA, que muito pode ser embasada na chamada Escola Filosófica da Maçonaria (LEE, 2022).

  Portanto, o movimento por uma Maçonaria Observante não é apenas uma reação à modernidade, mas uma reafirmação consciente da linhagem filosófica do REAA, cujas raízes mergulham no trabalho de figuras que se preocupam com a questão pedagógica de maneira profunda e simbólica, seminalmente francesas, como Martinez de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin, Jean-Baptiste Willermoz, e, posteriormente, Eliphas Lévi e Papus , que estruturaram um sistema de pensamento onde o ritual é um veículo para a transformação filosófica e do autoconhecimento. Esta tradição contrasta visivelmente com a perspectiva de outras Obediências e Ritos que, embora valorizem a história operativa, a caridade e a moralidade, frequentemente deixam em segundo plano as investigações metafísicas mais profundas que são a espinha dorsal do Escocesismo, percebido pela riqueza das instruções em todos os seus graus.

  Esta recente mudança de mentalidade refletiu-se nas políticas das Potências, que passaram a reinvestir em educação maçônica por meio de simpósios, conferências e parcerias acadêmicas . No entanto, ainda persiste a crise educacional latente na Ordem, especialmente no R.E.A.A., um fenômeno complexo enraizado em décadas de priorização do crescimento numérico em detrimento da profundidade iniciática. A realização do Primeiro Congresso de Pesquisa Maçônica, a ser realizado em 2025, no Brasil, é um sintoma claro desse diagnóstico: não apenas reconhece a crise de maneira empírica – pois é a primeira vez que se realiza um Congresso para pesquisa maçônica -, mas também representa um esforço coletivo para superá-la através da reflexão estruturada e acadêmica, especialmente com o tema da educação em destaque. Iniciativas similares já haviam surgido em outros países, como a emblemática parceria entre a Grande Loja da Califórnia e a Universidade da Califórnia (UCLA) em 2009, que marcou um deslocamento programático do foco na quantidade para a qualidade (TOWEY, 2022). Esse movimento atraiu um novo perfil de membros, que busca ativamente uma iniciação mais rigorosa e filosoficamente significativa e pode antecipar o mesmo no caso brasileiro.

  Todavia, o principal desafio reside em romper com um formato institucional já cristalizado pelo tempo e retomar a proposta original do REAA como um sistema de educação simbólica. Essa abordagem não é intuitiva, pois demanda a transmissão de um conhecimento que vai além do intelectual, é conhecimento que requer mediação prática, representada pela máxima da relação entre Mestre e Aprendiz. É aqui que a figura do padrinho (proponente) assume papel crucial, atuando como guia não apenas para os estudos, mas para a vivência do simbolismo como ferramenta de autotransformação (LORA, 2025a).

  É precisamente neste ponto que se encontra o cerne para uma reforma educacional genuína na Maçonaria contemporânea: a compreensão de que o simbolismo maçônico no REAA, desde a transformação da Pedra Bruta em Pedra Polida até as operações alquímicas de Solve et Coagula, constitui um caminho de individuação profundamente radicado nas tradições filosófica, alquímica e cabalística . Esse processo, longe de ser mero exercício intelectual, representa uma jornada de autotransformação em que o iniciado, por meio dos símbolos e rituais, trabalha sua própria matéria interior — a prima materia  — rumo à realização de seu potencial filosófico. Sem essa compreensão, a reflexão maçônica permanece apenas no ideal kantiano, isto é, moral e ético. Portanto, não ultrapassa o que grandes tradições filosóficas chamam de consciência, olamot, verdade, realidade, etc. 

  No entanto, essa jornada, ainda que íntima e pessoal, não se faz no isolamento. Ela demanda a guia experiente de um Mestre, ou seja, no padrinho. Este não é apenas um indicador ou um protocolar apresentante, proponente; é o condutor que encarna a relação Mestre-discípulo, tão cara às ordens iniciáticas. Por meio do exemplo, da transmissão oral e do acompanhamento próximo, o padrinho assegura que o neófito não apenas compreenda, mas vivencie o simbolismo em sua profundidade transformadora. A figura de um orientador, Mestre, professor, é a principal chave para entender a crise maçônica educativa, mas, também, a solução, que no fim reside em preparar bons maçons, pois todos são padrinhos em potência. 

  Aqui reside a essência do ciclo pedagógico maçônico: um bom padrinho só pode existir se, por sua vez, tiver sido guiado por um Mestre igualmente dedicado e comprometido. Este é o princípio hermético e cabalístico da causa e efeito, da semente e da árvore — onde o fruto carrega em si a natureza e a qualidade da semente que o originou. É uma manifestação prática e evidente do Ouroboros , a serpente que morde a própria cauda, simbolizando um ciclo eterno de renovação e transmissão onde o fim se alimenta do início, como uma vela acesa é capaz de acender outra ou que a cura está no próprio veneno. Por isso a solução para o problema está no próprio problema neste caso.

  Dessa forma, a educação maçônica transcende o aspecto instrucional e se afirma como um ciclo contínuo de reprodução filosófica. Cada Mestre bem formado torna-se, por sua vez, um semeador de qualidade, perpetuando assim a corrente de transmissão iniciática. Romper esse ciclo, seja pela falta de formação, seja pela negligência no acompanhamento, é interromper a própria regeneração da Ordem . Portanto, revitalizar a experiência maçônica exige reinvestir nessa relação primordial, assegurando que cada elo da cadeia seja forte o suficiente para sustentar o próximo, numa reprodução infinita do divino dentro da realidade finita da comunidade maçônica, micro e macrocosmicamente.


3. Jung e a Tradição Simbólica Maçônica

  A superação desta crise exige um retorno aos fundamentos. Carl Gustav Jung pode ser lembrado aqui por oferecer um quadro teórico relevante para compreender a potência transformadora inerente ao sistema pedagógico maçônico, principalmente no caso do REAA que é iniciático e simbólico. A esse respeito, Jung observou que o inconsciente fala na linguagem de símbolo. Uma imagem deve ser entendida como tendo um espectro de significados possíveis, que se relacionam por meio de um tema significativo (BOBROFF 2024:113). Segundo Jung, o símbolo distingue-se radicalmente do mero signo por sua natureza transcendente e capacidade de expressar conteúdos psíquicos parcialmente desconhecidos pela consciência, funcionando como uma ponte entre o consciente e o inconsciente (SERBENA 2010). Enquanto um signo (como uma seta de trânsito) representa algo conhecido e de significado unívoco, o símbolo possui uma carga arquetípica e polissêmica, portador de energia libidinal e mediador de processos de transformação psíquica (SILVA JUNIOR, 2016). Por exemplo, a cruz cristã, como signo, identifica publicamente o cristianismo, mas como símbolo, encarna a união de opostos (como o humano e o divino, a morte e a renovação), expressando um conteúdo que transcende sua interpretação literal e conecta-se ao arquétipo de sofrimento e redenção. Portanto, a experiência de observar ou recordar esse símbolo no contexto religioso para um cristão tem uma força de introspeção muito maior do que simplesmente uma representação. Conhecer esse significado profundo possibilita uma transformação. Nesse sentido, cabe refletir se os símbolos maçônicos proporcionam entendimento ou contemplação semelhante após seu estudo e exame. Não do ponto de vista sacro ou religioso, mas de seu profundo significado contemplativo.

  Jung estabelece uma distinção fundamental entre símbolo, alegoria e signo, afirmando que o símbolo "não é uma alegoria nem um signo, mas a imagem de um conteúdo que, em grande parte, transcende a consciência” (JUNG, 2013). Esta característica de transcendência confere ao símbolo sua função crucial no processo de individuação, servindo como ponte para integração de conteúdos psíquicos profundos. A natureza dinâmica do símbolo é reiterada na obra junguiana: “O símbolo vivo é a expressão de uma coisa não encontrada de outra maneira e, portanto, desconhecida” (JUNG, 2011, 287). Esta dinamicidade manifesta-se na capacidade do símbolo de emergir do inconsciente como um mediador ativo entre as instâncias psíquicas, "ou seja, ele está vivo e mobiliza a energia onde o consciente encontra sentido e a razão desconhece" (CARDOSO, 2018).

  Dessa forma, perceber essa visão ou entendimento do símbolo significa passar a compreender a realidade psíquica como um diálogo contínuo entre o consciente e o inconsciente, onde imagens, sonhos e fantasias deixam de ser meros signos literais para se tornarem portas de acesso a conteúdos arquetípicos universais e a aspectos negados do Self . Essa percepção desencadeia o processo de individuação, no qual a pessoa, ao interpretar e se relacionar com os símbolos, não busca uma decifração única, mas permite que essas imagens mediadoras integrem opostos psíquicos, transcendam conflitos e ampliem a consciência, transformando a experiência de vida em uma jornada contínua de autoconhecimento e conexão com sentidos profundos e coletivos da existência. É nesse sentido que as máximas maçônicas podem ser experimentadas de forma plena, isto é, causando uma verdadeira transformação do Homem de Chumbo em Homem de Ouro ou na Pedra Bruta em Pedra Polida. 

  Embora o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) não explicite formalmente um método pedagógico de alto grau de sofisticação, a percepção da capacidade da linguagem simbólica, anterior à própria Maçonaria e presente em diversas tradições, permite compreender a proposta iniciática da Ordem e seu potencial de autotransformação por meio de seus fundadores, obras e biografias. Nesse sentido, o princípio do VITRIOL pode ser entendido como análogo ao conceito de individuação. A questão central reside no fato de que esse processo é contínuo ao longo de todos os graus do REAA. Se não for assim percebido, compreendido e praticado ao longo de toda a jornada maçônica, a força contida nesse símbolo perde sua eficácia e pouco contribui para a transformação interior declaradamente promovida pelos rituais de cada Grau. Essa premissa é reiteradamente reforçada em obras de referência da Escola Filosófica maçônica, especialmente em Morals and Dogma de Albert Pike (1871). Essa concepção do símbolo como força ativa  é central para se compreender a função dos rito. O processo de individuação, definido por Jung como o caminho de integração entre consciente e inconsciente rumo à totalidade psíquica (o Self), encontra um paralelo na jornada do REAA, ou seja, a lapidação da Pedra Bruta (em si mesmo), onde o iniciado trabalha para superar suas imperfeições. Portanto, o conserto em si mesmo, a cura em si mesmo, como um processo alquímico de purificação até se realizar a Grande Obra. 

  Os instrumentos e símbolos maçônicos operam, portanto, como veículos de arquétipos – "formas ou imagens de natureza coletiva, que ocorrem praticamente em toda a Terra como constituintes dos mitos e, ao mesmo tempo, como produtos individuais autóctones de origem inconsciente" (JUNG, 2000, 45). O REAA, em sua estrutura, atua de modo análogo às operações alquímicas descritas por Jung (a calcinatio, a solutio, a separatio), conduzindo o iniciado através das fases de nigredo (negrume inicial), albedo (purificação) e rubedo (realização final). As iniciações podem ser observadas por meio dessa máxima alquímica que tem paralelo na própria cabalá de modo simbólico. O processo iniciático e a representação é sempre a mesma, apenas ensinado ou examinado por símbolos diferentes, mas com o mesmo fim .

  Esta visão junguiana encontra ressonância plena com a intenção original dos idealizadores da tradição filosófica maçônica, que concebiam a Maçonaria como um caminho de autoconhecimento e transformação. Para Albert Pike (1871), os símbolos maçônicos não eram meras representações, mas veículos de verdades filosóficas imutáveis, cujo estudo metódico proporcionava ao iniciado a possibilidade de ascender ao entendimento profundo de si mesmo e do universo. Segundo Pike, cada grau maçônico é um passo na jornada de elevação moral e intelectual, onde os símbolos funcionam como chaves para o autoconhecimento e o aperfeiçoamento humano.

  Por sua vez, pensadores como Martinez de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin e Jean-Baptiste Willermoz foram pioneiros ao estruturar sistemas filosóficos no qual o ritual não era apenas um conjunto de cerimônias, mas um meio efetivo para a reintegração do homem ao seu estado original de pureza e sabedoria divina. Para esses autores, a Maçonaria operava como um rito de passagem que permitia ao iniciado restabelecer sua conexão com forças espirituais superiores, promovendo uma transformação interior fundamental (Pasqually, 1775; Saint-Martin, 1791; Willermoz, 1778).

  Eliphas Lévi e Papus, influentes maçons do século XIX, ampliaram essa visão ao integrar a Maçonaria com a Cabalá e o Hermetismo, reconhecendo no simbolismo maçônico um elo entre as tradições filosóficas mais antigas e a evolução espiritual do ser humano. Lévi, em suas obras como Dogme et Rituel de la Haute Magie (1855), associava o simbolismo dos graus maçônicos a um mapa para a ascensão espiritual, onde a Maçonaria servia como uma escola iniciática que, por meio dos rituais e da meditação sobre os símbolos, conduzia o iniciado à compreensão dos mistérios universais.

  Para todos esses autores, a Maçonaria era vista como um sistema educativo iniciático robusto, no qual o templo simbolizava a sala de aula, o ritual representava o currículo e a experiência simbólica era o método de ensino. A pedagogia maçônica, fortemente influenciada pelos ideais iluministas, operava por meio de uma tríade essencial: exposição, que se manifestava no ritual encenado, contemplação, que envolvia a meditação profunda sobre os símbolos e seus significados, e aplicação, que correspondia à vivência dos princípios e ensinamentos no cotidiano do iniciado. Essa pedagogia não visava apenas o desenvolvimento intelectual, mas o despertar de uma consciência, em que o conhecimento se tornava a chave para a transformação espiritual e moral, alinhando o indivíduo com as leis universais e com sua própria essência divina.

  Com isso, resta discutir o esvaziamento do simbolismo que reflete, essencialmente, na robustez pedagógica necessária capaz de responder e atender muitos dos temas aqui elencados e que, de certa forma, ressoam no contexto da evasão maçônica.


 4. Análise e Discussão: O Esvaziamento do Símbolo e o Ciclo da Transmissão

 

  A análise crítica empreendida neste estudo, baseada nas fontes da Escola Filosófica da Maçonaria (PIKE, 1871; WILMSHURST, 1924) e da teoria junguiana (JUNG, 2011; 2013), bem como na revisão de diagnósticos históricos e contemporâneos (DUMENIL, 1984; TOWEY, 2022; MORAIS, 2020), permite argumentar que a crise educacional do R.E.A.A. manifesta-se concretamente como um esvaziamento progressivo da função simbólica do ritual. Este esvaziamento opera uma dupla transformação negativa: converte o símbolo, entendido na perspectiva junguiana como um organismo vivo e transformador (JUNG, 2011), em mero signo decorativo ou protocolo burocrático; e reduz a Loja, potencial "laboratório de individuação", a um espaço de sociabilidade ou administração onde o tempo dedicado à introspecção e à hermenêutica coletiva dos símbolos é marginalizado.

  A metodologia de análise crítica aplicada revela que esse fenômeno não é aleatório, mas sintoma de uma ruptura no ciclo da transmissão iniciática. A relação Mestre-aprendiz, eixo central da pedagogia maçônica tradicional (LORA, 2025a), é frequentemente substituída por um vínculo burocrático. Sem a mediação de um Mestre que encarne e transmita a vivência do simbolismo – atuando como o senex (arquétipo do ancião sábio) que guia o puer (arquétipo do iniciante) na jornada junguiana –, o processo de individuação fica truncado. O neófito, mesmo exposto aos ricos símbolos do Rito, carece das chaves hermenêuticas para uma interpretação significativa que ressoe em seu inconsciente, conforme previsto pela psicologia analítica (SERBENA, 2010). O ritual, portanto, falha em operar como um símbolo vivo e degenera em repetição estereotipada, o que corrobora a hipótese central deste trabalho sobre a crise ser, fundamentalmente, uma crise pedagógica.

  Este diagnóstico é confirmado pelos dados quantitativos citados (CMI, 2018; MORAIS, 2020), que apontam a superficialidade formativa e a frustração com a experiência ritual como causas primárias da evasão. A consequência direta, observável pela análise das práticas descritas nas fontes secundárias (TOWEY, 2022), é a cisão entre o intelecto (o conhecimento sobre a Maçonaria) e o ser (a transformação através da Maçonaria). Sem a internalização vivencial, símbolos fundamentais como a lapidação da Pedra Bruta ou o princípio alquímico Solve et Coagula tornam-se conceitos abstratos, destituídos de seu poder de catalisar a transformação psíquica. A progressão pelos graus, assim, arrisca-se a tornar-se um cumprimento de requisitos temporais, e não uma assimilação progressiva e interiorizada dos arquétipos apresentados em cada etapa.

  Dessa forma, a análise demonstra que o esvaziamento do símbolo e a quebra do ciclo de transmissão são faces da mesma moeda. Superar a crise exige, necessariamente, a restauração de uma pedagogia que reinstitua o símbolo como ferramenta central de autoconhecimento e reative a relação Mestre-discípulo como veículo privilegiado para sua transmissão eficaz. Esta conclusão fundamenta as diretrizes propostas a seguir, que visam intervir precisamente nestes pontos críticos identificados.


5. Considerações finais e recomendações


  A análise realizada procura confirmar a hipótese inicial: a crise educacional do R.E.A.A. é, em sua essência, uma crise de significado decorrente do esvaziamento do simbolismo. Por sua vez, a revitalização do REAA depende de um retorno consciente à sua raiz arquetípica autotransformadora, recentrando a experiência maçônica no símbolo como ferramenta de individuação. Para tanto, é possível propor algumas diretrizes teóricas para uma reforma pedagógica contemporânea:


1. Reformulação Pedagógica: Os manuais de instrução maçônica devem transcender a mera exegese intelectual dos símbolos, incorporando exercícios práticos de reflexão e meditação que facilitem sua internalização e vivência. A excessiva proteção do Rito, tratado como segredo inquestionável, mostra-se contraproducente, pois gera uma curiosidade que, não saciada, impede a compreensão profunda. É fundamental fomentar o diálogo aberto e a explicação antecipada – tanto fora quanto dentro do Templo, por meio de conversas informais entre Mestre e discípulo –, de modo a incentivar o questionamento e o debate sobre o Rito e a forma de trabalhar em Loja. O Templo funciona como laboratório prático, mas a "sala de aula" (presencial ou virtual) é indispensável para a fundamentação teórica, tal como era valorizado na tradição.

2. Capacitação além do Ambiente Ritual: A formação maçônica precisa incluir temas que ultrapassem o âmbito estritamente ritualístico, uma vez que grande parte do conteúdo do REAA tem suas raízes em outras tradições. Sem esse embasamento, os símbolos tornam-se confusos e pouco examinados. A exploração de parcerias e iniciativas conjuntas com outras Potências, Lojas ou mesmo Ordens afins pode enriquecer significativamente a compreensão do ritual. Investimentos em iniciativas educativas – como a escola EAD mantida pelo GOBSP, formada por Irmãos, ou parcerias da Secretaria de Educação e Cultura com instituições de ensino – representam caminhos viáveis para essa capacitação em escala, principalmente através de modalidades virtuais. 

3. Reestruturação do Tempo em Loja: As reuniões devem ser reequilibradas para garantir um espaço privilegiado à discussão profunda de símbolos e alegorias, reduzindo a preponderância de longos trâmites administrativos. É essencial priorizar o tempo de qualidade, tanto dentro quanto fora do Templo, integrando mecanismos virtuais para otimizar atividades. A modernização dos processos administrativos – utilizando os recursos tecnológicos disponíveis – é uma realidade da qual a Maçonaria só tem a ganhar, contribuindo diretamente para o revigoramento do entendimento simbólico e da educação maçônica.

4. Integração de Iniciativas Educativas: Academias maçônicas e Lojas de pesquisa devem atuar em sintonia com as Lojas Simbólicas, assegurando que o conhecimento teórico produzido se reverta em ferramentas práticas de autotransformação. Iniciativas conjuntas – como sessões abertas, visitas a instituições de estudo como a Sociedade de Teosofia ou a Rosacruz, entre outras – podem capacitar os Irmãos e estimular uma nova percepção sobre o simbolismo, que por vezes se encontra enrijecido. Essa abertura é vital para dar fôlego e um entendimento renovado à jornada maçônica.


  A Maçonaria sempre se transformou ao longo da história, das Old Charges operativas aos rituais especulativos , adaptando-se aos contextos sem perder sua essência simbólica. A proposta aqui esboçada não é revolucionária, mas evolutiva: uma acomodação necessária à modernidade líquida , que alterou profundamente as relações sociais, o tempo e a forma de aprender. Trata-se, em última instância, de resgatar o ideal pedagógico do REAA, pressionando por um retorno à centralidade do símbolo como ferramenta de individuação.

  Em última instância, o desafio é existencial. A Maçonaria, principalmente o REAA, deve escolher entre continuar como uma agremiação social ou reafirmar-se como uma via singular de educação do ser por meio da linguagem universal do símbolo, o simbolismo que dá nome a todas as Oficinais, afinal, todas são nomeadas como Lojas Simbólicas. O reencontro com esta missão essencial é o único caminho para restaurar sua prosperidade filosófica, que, como bem lembrado há mais de um século, reside não na riqueza material, mas na sua capacidade de conquistar as afeições de seus membros e guiá-los em sua jornada de individuação.


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