domingo, 27 de julho de 2025

Yud: O Ponto Que Sustenta o Universo

Há símbolos que não se medem pelo tamanho, mas pela profundidade. E há letras que não precisam de corpo para carregar o espírito. A menor de todas as letras do alfabeto hebraico: Yud (י), parece à primeira vista apenas um traço breve, um quase nada. Um ponto suspenso, tímido, quase ausente. Mas dentro dela repousa um universo inteiro. Na tradição da Cabala, esta letra é considerada a matriz invisível de toda a criação. O ponto primeiro, o princípio que contém, em embrião, tudo o que virá a ser. Creatio ex nihilo.

Para os cabalistas, a Yud é a semente, o vestígio mais puro da intenção divina de criar. Antes de qualquer forma, antes mesmo da palavra, existe um ponto. E esse ponto é o gesto silencioso do divino que se retrai para dar lugar ao outro, ao mundo, ao tempo, ao ser humano. A Cabala chama esse movimento de tzimtzum: uma retracção voluntária, um acto de generosidade cósmica. O infinito recua, e da sua ausência aparente brota a possibilidade de todas as presenças. Nesse espaço, a Yud brilha. Ela é a faísca da luz original, o foco do que virá a se expandir, o ponto imóvel que sustenta o movimento de tudo o mais.

Mas a beleza simbólica da Yud não se limita ao pensamento místico judaico. Ela encontra um eco ressonante, e surpreendentemente preciso, na tradição maçónica, onde também se cultiva o valor da construção interior, da iniciação simbólica e da confiança numa ordem superior. A Maçonaria, embora não seja uma doutrina religiosa nem esteja filiada a nenhum misticismo em particular, se estrutura sobre símbolos vivos, que não encerram verdades, mas despertam sentidos.

E é precisamente aí que a Yud encontra o seu lugar: como símbolo do princípio criador, do ponto de partida do espírito humano na sua jornada de ascensão. É o ponto no círculo. O ponto da origem. A centelha da consciência. Como o aprendiz que pisa no Templo pela primeira vez, a Yud é pequena, mas contém o todo. É o traço mínimo do qual surgirá a coluna, o templo, a luz.

Dentro da simbologia maçónica, há um emblema central: o ponto dentro do círculo. Este símbolo é vasto e polissémico, mas uma das suas leituras possíveis, e particularmente poética, é esta: o ponto representa o ser humano, e na sua essência, cercado pelo círculo da ordem cósmica, da moral, do tempo e da lei. Este ponto é o centro de equilíbrio, é onde começa a construção. E é também onde se encontra a consciência da origem, o princípio da rectidão, o chamado à elevação. O Yud, como ponto sagrado no alfabeto da criação, cumpre esse papel: ele não é apenas o início da palavra, mas o início da sabedoria.

Ela também é a primeira letra do Tetragrama Divino – YHVH (יהוה) – o Nome mais sagrado na tradição hebraica. É com a Yud que D’us Se nomeia ao mundo. Isto sugere-nos que o que é mais sagrado começa com o mais pequeno, com o que parece insignificante aos olhos não iniciados. A letra que menos ocupa espaço é justamente a que porta a potência total do Infinito.

É um convite à reflexão: o que é pequeno pode conter a totalidade; o que é invisível pode sustentar o visível. E isso não é apenas uma ideia mística; é também uma lição prática e ética, como a que propõe a Maçonaria nos seus rituais. A construção do templo interior começa com a humildade. O iniciado, ao adentrar o espaço sagrado da Loja, não se afirma: ele se oferece. Ele é, como a Yud, um ponto, mas um ponto disposto a crescer, a traçar linhas, a formar estruturas.

O valor numérico da Yud é dez pela guemátria, número que marca a totalidade no pensamento hebraico. Dez são os mandamentos, dez são as sefirot da Árvore da Vida cabalística, dez os dedos com os quais se trabalha e se toca o mundo, dez são as pragas, dez são as vogais do alfabeto, o sopro divino e interno que dá vida às consoantes e letras do alfabeto hebraico. Na geometria sagrada da tradição maçónica, o dez também representa a unidade completada, o retorno à origem depois do ciclo de nove etapas. É a chegada ao ponto em que se pode começar de novo, mas em outro nível, mais alto, mais consciente, mais pleno.

Yud é, portanto, símbolo da origem e do destino. Ela é o que precede a jornada e o que permanece ao fim dela. Não se esgota na forma: é puro princípio. E onde há princípio, há propósito. Onde há origem, há sentido.

E talvez seja justamente isso o que une, silenciosamente, a Cabala e a Maçonaria: a convicção de que o mundo não é caos, mas construção. Que há, sob a aparência fragmentada da existência, uma ordem possível, uma harmonia latente, um projecto que pede mãos, olhos e coração para ser realizado. Yud é esse projecto em estado puro: o ponto de onde tudo emerge, a semente de toda edificação. É o ponto onde o humano e o divino tocam-se. O ponto que lembra, a cada traço, que a criação, seja ela cósmica ou interior, começa no silêncio, na intenção, na humildade.

Num tempo em que tudo grita, em que tudo quer ser grande, visível, imponente, o Yud ensina a beleza do recuo, o poder do mínimo, a força do essencial. Ensina que, para construir, é preciso primeiro conter-se. Que, para erguer colunas, é preciso saber ser ponto. E que a verdadeira elevação começa dentro.

Assim, a próxima vez que virmos um ponto, que contemplarmos o início de um traço, de uma palavra, de uma ideia, que lembremos do Yud. Porque no menor dos símbolos pode habitar o maior dos mistérios.

E neste mistério vive a promessa da luz.



Publicado no Portal Freemason: https://www.freemason.pt/yud-o-ponto-que-sustenta-o-universo/
Em 27/07/2025

A Indelével Presença do Hebraico no Rito Escocês Antigo e Aceito