quinta-feira, 5 de junho de 2025

Albert Pike: O seu legado além da controvérsia e dos média



A queda da estátua de Albert Pike em Washington, D.C., em Junho de 2020, durante manifestações públicas, reacende um debate sobre como a sociedade deve lidar com figuras históricas cujos legados são, frequentemente, complexos e controversos. O monumento a Pike foi derrubado por manifestantes, que, equivocadamente, o associaram a um “monumento confederado”. O acto de destruição e subsequente queima da estátua foi amplamente noticiado, trazendo à tona a discussão sobre o tratamento de símbolos históricos e figuras como Pike, cujas vidas e legados não podem ser simplificados a um único rótulo. Para além deste acto de vandalismo, é interessante notar que há maçons que consideram a obra de Pike obsoleta ou atrasada. Apesar de ser uma parcela muito pequena e possivelmente motivada pela falta de análise ou mesmo conhecimento do seu trabalho e legado, é preocupante porque, de certa forma, acaba por influenciar ou propagar desconhecimento e escuridão onde mais precisamos de luz.

Como observa Christopher Hodapp, autor e especialista em Maçonaria, a destruição da estátua de Pike revela uma tendência perigosa de reduzir as figuras históricas a estereótipos convenientes, sem considerar a totalidade das suas contribuições e falhas. Na sua análise sobre Pike, Hodapp destaca que a figura de Pike foi, ao longo do tempo, cercada por mal-entendidos e distorções, muitas das quais são perpetuadas por narrativas simplistas. Como de uma parcela pequena de maçons que também pode ser inserida nestas distorções. Para Hodapp, Pike foi um homem que, embora tenha cometido erros na sua vida, também demonstrou notável crescimento pessoal e intelectual, buscando, ao longo da sua jornada, promover valores como o autoconhecimento, a moralidade e a fraternidade. Hodapp, ao lado de Arturo De Hoyos, destaca que Pike foi um pensador multifacetado, cujas contribuições para a Maçonaria e a sociedade americana não podem ser reduzidas a sua relação com a Guerra Civil Americana ou com acusações infundadas, como a sua suposta associação ao Ku Klux Klan.

Albert Pike foi um homem de múltiplas facetas. Nascido em Boston, Pike se destacou como advogado, escritor, poeta, historiador e líder militar. A sua actuação em favor dos direitos dos nativos americanos, por exemplo, reflecte uma das suas preocupações sociais mais profundas. Embora tenha se posicionado a favor dos direitos dos estados durante a Guerra Civil, Pike nunca justificou a escravidão. De facto, embora tenha se oposto à renovação do tráfico de escravos, ele permaneceu, em algumas das suas declarações, hesitante em condenar a escravidão de forma absoluta, o que lhe rendeu críticas posteriores.

Hodapp também destaca que Pike foi uma figura polarizadora, alguém que, ao longo da vida, foi capaz de abandonar preconceitos pessoais e se envolver em causas progressistas, como o apoio à Maçonaria de Prince Hall e ao movimento maçónico negro. Pike não apenas colaborou com líderes da Prince Hall, como Thornton A. Jackson, mas também compartilhou com eles os rituais maçónicos de grau superior, reconhecendo a importância da fraternidade sem as barreiras raciais que dividiam a sociedade americana.

Porém, o legado de Pike foi manchado por falsas alegações. Como aponta De Hoyos, Pike foi erroneamente acusado de ser membro do Ku Klux Klan, uma acusação que nunca foi corroborada por documentos ou investigações sérias. O Congresso dos Estados Unidos, numa investigação em 1871, refutou essas alegações, constatando que não havia qualquer vínculo entre Pike e o grupo. Hodapp também menciona essa distorção histórica e a maneira como ela prejudicou a imagem de Pike ao longo do tempo, afectando a compreensão pública da sua vida e da sua obra.

Outro ponto controverso foi a acusação de que Pike seria um “luciferiano”, uma falsa narrativa alimentada pelo charlatão francês Leo Taxil, que mais tarde admitiu que a sua acusação era uma farsa. Taxil afirmou que Pike seria o “Pontífice Soberano da Maçonaria Universal” e que teria ensinado a adoração a Lúcifer, algo totalmente desmentido por Pike nos seus próprios escritos, nos quais ele reafirma a sua crença em Deus e na moral cristã. Como destaca Hodapp, Pike era, na verdade, um cristão devoto, que via em Jesus Cristo um exemplo moral e ético para os maçons.

O ponto central do legado de Pike, como ressalta Hodapp, é a sua busca incessante pela verdade e pelo aprimoramento pessoal. Nas suas obras, como “Morals and Dogma”, Pike exortava os maçons a se dedicarem à busca da verdade, ao auto-aperfeiçoamento e ao serviço à humanidade. O seu famoso ditado, “O que fizemos para nós mesmos morre connosco; o que fizemos pelos outros e pelo mundo permanece e é imortal”, continua a ser uma das frases mais emblemáticas do seu pensamento.

Portanto, é essencial que, ao analisarmos figuras históricas como Albert Pike, adoptemos uma abordagem que vá além das simplificações impostas pelos média e pelos protestos públicos. Como destaca Hodapp, e como Arturo De Hoyos tem insistido nas suas pesquisas, o legado de Pike deve ser entendido no seu contexto completo, reconhecendo tanto as suas falhas quanto as suas virtudes, e não reduzido a um estereótipo conveniente ou a uma narrativa polarizada. Pike foi um homem que, apesar das suas imperfeições, buscou criar uma fraternidade baseada na superação de barreiras sociais e raciais e na promoção do bem comum.

Em última análise, tanto os vândalos que destroem a estátua de Albert Pike quanto os maçons que buscam manchar a sua imagem compartilham a mesma ignorância: a de reduzir uma figura histórica multifacetada a um simples estereótipo, desconsiderando a complexidade do seu legado. A destruição física da estátua e a tentativa de deslegitimar o seu trabalho revelam um empobrecimento da reflexão e uma falha em compreender as nuances que caracterizam as trajectórias humanas. Como observa Christopher Hodapp, as figuras históricas não devem ser julgadas de forma superficial ou simplista, mas sim analisadas na sua totalidade, com todos os seus méritos e falhas. A tentativa de apagar ou distorcer a história, seja por meio da violência simbólica contra monumentos ou pela disseminação de distorções sobre o trabalho de Pike, empobrece a compreensão pública e a reflexão crítica sobre o legado dessas figuras. Albert Pike foi uma personalidade de relevância indiscutível, especialmente para a Maçonaria e, particularmente, para o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA), onde as suas contribuições são fundamentais. A sua obra “Morals and Dogma” continua a ser uma referência central para maçons ao redor do mundo, oferecendo uma profunda reflexão sobre a moralidade, o autoconhecimento e o serviço à humanidade. A sua influência vai além das controvérsias e falhas da sua vida, reflectindo um trabalho que buscava aprofundar o entendimento filosófico e esotérico dentro da Maçonaria. O verdadeiro valor de uma figura histórica como Pike reside na nossa capacidade de aprender com as suas virtudes e limitações, sem cair na tentação de simplificar ou distorcer a sua história. O legado de Pike, longe de ser uma simples narrativa de acertos e erros, representa uma parte essencial da tradição maçónica, especialmente no contexto do REAA, que deve ser reconhecida e compreendida na sua totalidade, como uma fonte rica de sabedoria e reflexão para as gerações actuais e futuras.

Originalmente publicado no Portal Freemason
https://www.freemason.pt/albert-pike-legado-controversia-media/